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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Tudo começou quando a partir de um decreto comungado em Brasília foi dado aos municípios independência total e a autoridade de Estado que deveriam apenas submeter-se a Nação em questões econômicas e populacionais quando se fizesse necessário.
Nicolau Couto

Belém, a cidade-estado que trazia novamente seus dias de esplendor devido seu poderio econômico dado no presente século teve de pagar bastante caro por essa conta. Foi o preço do domínio. Sua glória custou a ruína da Nação.
Dora Evarista Gusmão

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Capítulo 7 "Lana"




     Há alguns anos um grupo de pessoas desempregadas, o que era bastante comum ali, resolveram montar para conseguir de alguma forma seu sustento algumas barracas de venda de bugigangas à sombra de uma frondosa ameixeira em uma praça central do Complexo de Trabalho de Hensel, que obviamente ainda nem tinha esse nome. Tudo isso aconteceu muito antes de Antonio Ferdinozza e tudo que viria com o domínio da grande estrela. Diariamente, pela manhã, encontrava-se a venda embaixo daquela árvore qualquer coisa que se pudesse imaginar. Roupas usadas, aparelhos eletrônicos, velharias, frutas, alimentos diversos, artesanatos e tantas outras coisas que podiam ser compradas ali. O lugar rapidamente ganhou o nome de shopping ameixeira, que fez muito sucesso, sendo chamado de “o shopping dos pobres”. Alguns ainda, diziam as más línguas é claro, falavam que tratava-se de mercadoria roubada em sua maioria, o que não era difícil de imaginar, porém, ao ver as mulheres idosas, com os corpos duros, como cadeados enferrujados, a ideia parecia tão ridícula quanto um governo ditador dominando a cidade um dia. Mas toda e qualquer ideia ridícula tem sempre grandes chances de tornar-se realidade.
     Um poder ditador dominou a tudo e todos e Ferdinozza tomou posse de Belém. Houve eleições naquele ano e ele que já era bastante conhecido muito antes do decreto divisor foi eleito, uma grande fraude de fato, já que em todo o país toda a constelação tomou posse do governo naquele mesmo período. Ferdinozza ganhou com 94% dos votos. Os outros 6% foram brancos e nulos. Ainda que com tudo isso, o comentário que surgia pelas bocas dos velhos jogadores de dominó e carteado, os jovens nas mensagens de texto e as matérias políticas dos jornais tratavam tudo aquilo de maneira bastante anestésica e traziam a todos uma sensação de continuidade estável. Traduzindo: Mais um pra mamar nas tetas do governo e roubar o povo. Infelizmente, talvez para alguns, não foi o que aconteceu. Tudo mudou depois daquele 1 de janeiro, até mesmo naquele miserável shopping de chão, sob a ameixeira, que tumultuava diariamente a praça com comerciantes e compradores, todos juntos na peleja por um bom negócio.
     Quando Ferdinozza assumiu o poder o livre-comércio da capital foi desativado. O shopping dos pobres foi retirado e a ameixeira derrubada com grande tumulto, gritos e alguns tiros também – nada de incomum a partir dali. Um novo prédio construído. O Mercado do Fio.
     O Mercado do Fio nada mais era do que um galpão construído exatamente no lugar que abrigara O Ameixeira, ou seja, do lado oposto do Terminal de Coleta, na margem do porto verde. Conseguia-se qualquer coisa ali, roupas, alimentos e até algum livro de páginas amareladas e utensílios de casa. Tudo muito caro e descontado automaticamente no Rendimento Cápto. Todos os dias uma enorme fila se formava ali. Era a entrega de mantimentos à população. Açúcar, pão, café, arroz, farinha, feijão e até um pouco de carne conseguia-se ali. Uma quantidade era delimitada por famílias, as mais pobres, para o consumo diário. Nada era de graça. Para receberem o chamado “saco dos pobres” cada família tinha de ter pelo menos um membro trabalhando ao governo da capital e deixar a disposição do mesmo para qualquer petição prevista em necessidade. Havia um contrato para isso. Em Hensel mais da metade da população dependia do “saco dos pobres”. Não era nada que garantisse a sobrevivência, muito menos uma ação constante por parte do governo, porém, na ausência de qualquer perspectiva melhor, era a única solução.
     Lana costumava ir sempre ao Mercado do Fio quando as caminhonetes cheias de comida vinham até a entrada do mercado e eram descarregadas em alguns instantes por alguns passantes com a ordem dos militares. Naquele dia, estava ela ali, junto com outras dezenas de pessoas que amontoavam-se na fila que dava voltas pelo quarteirão central da antiga praça.
     Um homem de bigodes volumosos e olhos ansiosos começou a gritar andando na contramão da fila que iniciava-se no portão do Mercado do Fio. Usava um quepe azul já conhecido por todos, era um membro do exército da capital. Carregava em uma das mãos um pacote pequeno com uma estrela estampada. Suas botas de couro novas e lustrosas faziam um som desagradável ao acompanhar o passo comandado por seu dono. Silviano era um grande desgraçado.
     — Cidadãos de Hensel — começou ele com uma voz apressada. —, estamos aqui em nome de nosso intendente Ferdinozza. Ele manda saudações a todos. Passamos por momentos bastante difíceis, todos vocês o devem saber. Uma crise está por vir em toda a nação, porém não devem temer — ergueu a mão que estava com o pequeno pacote estampado. — Nosso comandante como sempre mostra seu empenho e nada deixará faltar em nossa cidade. Trabalhemos juntos para nossa resistência. Homens, mulheres, velhos e crianças, todos vocês estão chamados a erguer seus braços a manter aquilo que foi a missão de nossos antecessores.
     O homem parou e olhou para uma velha que abraçava fragilmente uma garota que tinha idade para ser sua neta. Estavam miseráveis. A mulher que nada tinha ouvido do entusiasmado discurso do sargento esfregava debilmente as mãos nos cabelos da neta.
     — Mulher, queres pão? — indagou-a.
     Um silêncio pairou sobre a multidão até que a velha finalmente apercebeu-se de que a pergunta se tratava dela.
     — Mulher, queres pão? — repetiu.
     — S-sim. Q-que-quero.
     — Ora vejam, uma demonstração: Essa  pobre coitada pode muito bem lembrar de como as coisas aconteciam antes de Ferdinozza. A crise pairava pela nação e principalmente na capital. A miséria era fachada de todos os rostos cansados de homens e mulheres trabalhadores. Hoje, graças a Ferdinozza  e Antueiras não é mais assim. Vejam: temos pão. O pão que Ferdinozza dá ao povo! Este é o pão de cada dia na Belém de Ferdinozza! Salve Ferdinozza!
    “Salve Ferdinozza!”, todos repetiram.
     Lana acompanhava toda aquela cena silenciosa. O homem bigodudo finalmente terminara o discurso e assim a entrega de mantimentos finalmente começava. Um soldado com uma das máquinas de identificação se posicionou sob uma mesa e outro entregava a partir da confirmação do primeiro um saco com a mesma estampa daquele desenho visto nas mãos do sargento Silviano.
     — Andem todos! Polegar direito para identificação!
     Daquela vez parecia que o governo estava um pouco mais disposto a ajudar. O saco de papel que cada um levava ao sair parecia um pouco mais pesado que o normal.
     Quando a esmola é demais o santo desconfia.    

* * *
     Não demorou muito e Lana já havia pegado aqueles mantimentos também. Não era muito, mas era necessário e mesmo que não fosse Lana sabia da importância em se enfrentar aquela fila. Ela lembrava-se ainda do que o pai certa vez lhe contara sobre uma família um pouco mais pobre de Hensel que deixou de ir a algumas campanhas para pegar da colheita do intendente. Passaram dois dias e encontraram todos mortos. O marido, a esposa e um filho. A não ida ao posto de distribuição de mantimentos no Mercado do Fio era visto pelos olhos do governo como um sinal de prosperidade econômica irregular ou pior, como uma simples e agressiva demonstração de rejeição ao governo. Mais tarde todos entenderam o que havia ocorrido. O esposo, um homem já velho estava passando um mal bocado e com a saúde debilitada.
     Acamado, não trabalhava mais e todo o sustento da família vinha da criação de algumas galinhas que tinha, da horta da esposa e de alguma caça que o filho adolescente realizava. Em poucos dias seu estado de saúde piorou e não pode mais fazer nada. A família isolou-se e não chegavam mais nem a sair do pequeno casebre próximo às praias de Hensel. A moradia ficava próximo a um desfiladeiro que se decaía por sobre o rio que circundava a ilha de maneira que o único modo de se chegar a margem da praia era descendo por escadas de madeira construídas por eles mesmos. Após duas campanhas no Mercado do Fio os homens de capacete azul chegaram até aquela casa. A mulher chegou a tentar explicar a eles o motivo das faltas, porém nada adiantou. Um dos homens, aquele que parecia ser o chefe deles, um sujeito ordinário com um nada sutil bigode retangular aparado arrancou o velho de seu leito como uma fera que rasga a carne de sua presa com as garras. Puxou sua mão direita e pôs no aparelho identificador. O velho deu um leve gemido ao ser ferrado pelo mesmo para a coleta sanguínea.
     — Péstulo Ricardo Mourão, 63 anos. — disse o capitão.
     — Como disse seu moço, isso mesmo. Meu marido está muito doente, mas já está melhorando. Tenho dado umas ervas pra ele tomar no chá. Ele melhorando. Ele melhorando...
     — Minha senhora, — interrompeu ele — seu marido não está melhorando coisa alguma. Péstulo Ricardo Mourão está com câncer. Provavelmente um câncer no estômago. Ele está morrendo. Morrendo. Olhe a senhora mesma — apontou a ela o aparelho onde aparecia a foto do marido e seus dados e logo abaixo inúmeras informações que não entendia e em negrito um circulo vermelho escrito 94%.
     O pobre homem parecia não estar ali presenciando aquele fato. Os três soldados, o seu capitão, a esposa e seu pequeno filho que acabara de acordar com todo aquele tumulto na pequena casa. Não estava ali. Sua esposa incrédula que um aparelho tão pequeno pudesse dizer algo tão cruel com uma força sobrenatural para o seu tamanho tão pequeno e mirrado começou a bater naquele capitão de capacete azul-claro. “É mentira! É mentira!” gritou ela enquanto aqueles homens tentavam segurá-la. Conseguiram.
     Aqueles grandes filhos-da-mãe.
     Sua velha nojenta.
     — O governo de Ferdinozza com o artigo 157 não tem nenhum dever nem responsabilidade com dementes, doentes físicos sem locomoção e doentes terminais, — cuspiu o cretino secamente. Após falar isso deu um leve sorriso, não com os lábios. Um sorriso através do olhar onde só a mulher pode perceber. Cálibra sempre gostava quando podia dizer aquelas palavras. Elas eram doces para ele. — o senhor Péstulo Ricardo Mourão não pertence mais a esta jurisdição.
      Automaticamente o homem simplesmente sacou a arma de sua cintura olhando fixamente aos olhos daquela que a pouco estava dando socos contra o seu peito e que agora imobilizada pelos seus homens não movia um único músculo de seu corpo.
     Um tiro.
     Um grito.
     Outro tiro.
    
     O menino não entendia muito bem toda aquela confusão que acontecia ali na sua casa estava ainda embrulhado em seu lençol de algodão surrado em sua cama que ficava em um lugar que chamavam de sala. Acordara com toda aquela gritaria. Viu sua mãe dando empurrões e socos contra um estranho homem com bigode engraçado. Os outros três homens que estavam com ele seguraram-na e a imobilizaram. Ficou com medo. Diante de tudo aquilo não conseguia se mover, estava totalmente paralisado. Rian entedera superficialmente quando o sujeito de bigode engraçado afirmou que o pai estava morrendo. Morrendo. Aquele cenário o deixou extremamente desconfortável e tudo o que queria era poder correr e abraçar sua mãe. Mas não conseguia. Não podia. Seus músculos estavam como que se estivessem congelados e uma forte dor corria por todo o seu corpo. Não gritava. Quando o homem disse a palavra “jurisdição” não entendeu muito bem, porém ao ver aqueles tiros pode entender a sua consequência. Sua mãe caíra e no chão ao olhar loucamente o estrago daquelas duas balas na cabeça de seu marido. Falecido marido. Compulsivamente ela tremia e dava berros dizendo algumas coisas inteligíveis.
     Quando aqueles homens da lei chegaram àquela casa o filho mais velho do casal estava cuidando do quintal. Eles não o viram. O jovem rapaz por um momento continuou seu serviço de capinar todo aquele mato que crescia ao redor da casa até o barranco que caía sob a praia. Estava ele ali quando ouviu os primeiros gritos da mãe. O que poderia ser? Correu em direção a casa e buscou por entre as brechas da tábuas que formavam as paredes do casebre entender o que estava acontecendo. Pelo tamanho dessas brechas não foi difícil ver aquela cena. Um homem de bigode estranho puxou a arma e mirou-a em seu pai e covardemente deu dois disparos.
     Filhos-da-mãe. Desgraçados. Meu pai.
     Os dois tiros fizeram um enorme estrago na cabeça do velho abrindo um enorme buraco ali, onde podia-se ver pedaços de massa encefálica e muito sangue escorrendo. O rapaz num ímpeto de tentar conter a ação daqueles homens puxou o terçado que estava usando para surpreendê-los entrando pela cozinha apanhando-os desprevenidos.
     — Como um homem sem jurisdição seu marido não terá direito a vaga em um cemitério comum. — recomeçou Cálibra observando detalhadamente sua farda para ver se não se sujara com o corpo miserável do falecido. — Aconselho que o enterrem pelo quintal mesmo. Devido a sua viuvez repentina a lei de Ferdinozza garante uma proteção de cem reais por mês durante dois meses em produtos do Mercado do Fio. Sobre seus b...
     — Seus desgraçados, bandidos!
     Levantando-se contra aqueles homens ele empunhava um grande terçado já enferrujado. Apanhando-os de surpresa, pelas costas, pegou em cheio um dos homens de Cálibra, que mais tarde puderam ver que se tratava de Francisco Goés. Com a arma pôde ferir seriamente o braço esquerdo do infeliz. Ele na verdade nunca imaginara fazer isso algum dia, como costumava ver nos filmes que tanto gostava de assistir, onde a cada tiro, faca ou até mesmo murros litros de sangue espalham-se por todos os lados. Certamente ficou decepcionado ao ver a fina lâmina entrando no corpo do militar e não o surpreendendo tanto assim. Então olhou novamente para o pai. Naquela partícula de segundo o fitou. A face do pai parecia intacta a não ser por um pequeno furo que saía um pouco abaixo dos olhos. O mesmo tão pequeno causara enorme estrago na parte de trás do crânio, onde espalhava um pouco daquilo que mantia o pai vivo há alguns minutos. O sangue não esguichava como nos filmes de Tarantino, mas escorria lentamente numa pulsação quase viva que ficava cada vez menos constante até parar. Retirou o terçado de Maués e mirou contra o que efetuara os disparos.
     Morre seu desgraçado, seu verme! Morre!
     Mas antes de alcançá-lo o algoz de seu pai venceu. Armou-se e foi certeiro. O tiro penetrou a testa. O jovem caiu de joelhos e ali morreu. A mãe que durante toda a briga permaneceu estática ao lado do marido, largou-o e correu até o filho. Ajoelhou-se ao lado dele e não mais chorava, apenas gritava.
     — Seus bandidos! Seus vermes! Malditos sejam, malditos sejam! Assassinos! Eu amaldiçoo vocês a so...
     — Margarina Mourão, — disse Cálibra com um sorriso macabro — quero dizer: Lúcia Margarida Mourão!
     Eu amaldiçoo a sofrerem o que estou sofrendo...Desgraçados...Meu filho...Meu marido...VOCÊS NÃO MORRERÃO ANTES DE MATAREM TODOS OS SEUS...Não morrerão...Onde está Rian?...Malditos...Não morrerão!
     A mulher olhou corajosamente para Cálibra enxugando o rosto das lágrimas que havia soltado.
     — Ana Margarida Mou...
     — Eu amaldiçoo todos vocês...Vocês não morrerão antes de matarem todos os seus! Não morrerão! NÃO MORRER...!
     — Mas você sim.
     Cálibra deu outro disparo.
     — Pensei que já tínhamos acabado com isso, sua bruxa nojenta!
     O silêncio se instaurou por alguns segundo até que Francisco Goés, o homem que estava ferido, após ter passado o êxtase sinistro de tudo aquilo.
     — Comandante, como explicaremos tudo isto?
     — Explicar? Que explicar nada. Alguma vez precisamos explicar alguma coisa? — Cálibra riu novamente enquanto pensava — Afinal de contas não aconteceu nada demais aqui esta manhã. Executamos o juízo de um homem sem jurisdição, um jovem em legítima defesa... enfim você foi ferido por aquele verme, não foi?
     — Nada muito grave. Um corte bem superficial. Aquela lâmina estava cega. Não sei como conseguia roçar com aquilo.
     Eles riram.
     — Bem, não tinha como observarmos isso naquele momento, mas se for necessário um tiro no seu ombro para poder provar isso eu mesmo o faço. — considerou o comandante. — E a mulher, por prática religiosa é claro. Com toda a certeza era uma dessas curandeiras, até me disse que estava curando o marido com o uso de ervas. Religião...
     Os três cuspiram no chão.
     — Vamos embora, deixem esses apodrecer aí pelo menos por alguns dias.
     Demorou alguns minutos após a saída deles até Rian conseguir se mover. Parecia que seu corpo estava sob o efeito de uma overdose de cicuta. Sua mente alerta, sua visão em desespero ao ver tudo aquilo, mas sem poder fazer nada. É claro que para um garoto ele não entendia nada disso, apenas que não conseguia se mover, mas não sabia o porque, talvez por medo. Mas aos poucos seus músculos foram se afrouxando, o coração foi desacelerando aos poucos. Assim conseguiu chorar, um choro contido quase mudo ao participar daquela cena grotesca. Seus pais e seu irmão ali, jogados. Até por ele, seu irmão mais velho, que não se davam muito bem e brigavam muito ele chorou, pois afinal de contas ele o amava. Rian começou a soluçar, como costumeiramente fazem as crianças após chorarem por longos períodos. Viu ali o pai, jogado na cama com uma poça de sangue em volta do seu corpo. Tocou levemente em seu rosto e fechou seus olhos, assim como a mãe. Rian que não costumava demonstrar muito seus sentimentos apenas observava tudo aquilo como em um sonho onde a qualquer momento tudo vai voltar ao normal. Mas sabia que nada voltaria. A mãe ali confirmava isso. Abraçou-a forte, como queria ter feito enquanto estava imóvel na cama e chorou alto. As lágrimas escorriam do seu rosto para de alguma forma aliviar tudo aquilo que estava sofrendo. O pequeno Rian estava só.
      
     VOCÊS NÃO MORRERÃO ANTES DE MATAREM TODOS OS SEUS...Não morrerão...

     A voz da mãe soou em sua mente impecável como se estivesse voltado, mas não. Estava morta. MORTA. Tinha de entender isso ou sofreria ainda mais. Rian levantou-se firme revigorado, enxugou as lágrimas e respirou fundo. Tinha uma missão: cumprir as últimas palavras da mãe. Isso foi para ele como um abraço que ela dava a ele costumeiramente quando chegava em casa.

     — Eu juro, pelo sangue de vocês, que cumprirei a palavra de mamãe. Eles vão pagar! Eles vão morrer!

Capítulo 6 “A Casa dos Albuquerque”



     Após as enchentes que deixaram parte da cidade destruída há alguns anos, os casarios históricos e habitações contemporâneas que ficavam à margem da Baía do Guajará foram inundados, o governo de Antonio Ferdinozza teve para si duas estratégias. Inicialmente, decidiram intensificar os trabalhos de revitalização e restauração de toda a parte histórica da cidade, isolando os inúmeros prédios com grandes cubos de vidro e metal, as quais protegiam sobretudo suas bases combatendo assim futuros transtornos, impedindo assim qualquer utilização desses. O que não era difícil de imaginar. Ferdinozza desde o início de sua intendência tinha forte apelo para o apagamento e esquecimento do que chamavam “os grandes documentos de todo o mal que nossa idolatrada cidade sofrera durante os seus mais de quatro séculos de existência”. Belém funcionava principalmente em seu domínio oeste, com a segunda estratégia criada pelo estimado prefeito. A cidade estendia-se, sobretudo, ao Anexo Belém-Cabana ou AlphaBetaCondomy e mais conhecido como AlBeCo.
     O AlBeCo era um gigantesco condomínio inaugurado cinco anos após a grande enchente de março. Uma enorme estrutura residencial-comercial que visava abrigar a alta sociedade belenense, assim como todo o maquinário político da cidade-estado. O Anexo se constituía de uma gigantesca área circular, tendo um raio de vinte quilômetros repartidos em áreas menores por vinte e cinco ruas que saíam da extremidade de AlBeCo e seguiam até o centro do grande circulo, em um enorme parque circular. Cada área menor era chamada de talha e dividia-se de A a Z. As talhas seguiam até os altos muros de concreto por dois caminhos: à entrada do condomínio, ao leste, que pela estrada velha chegava a parte antiga da cidade que nesse tempo estava totalmente abandonada e suja, inutilizada pela maior parte da população, com um forte cheiro característico de sujeira e com inúmeras pragas circulando por todo o lugar – a morada dos infelizes – e a oeste, pela estrada pavimentada fechada por muros e sentinelas que se direcionava ao rio que ligava o Complexo Hensel à cidade.
     Naquele lugar em meio a ruas apinhadas de gente viam-se homens e mulheres extravagantes. Com suas roupas caras de Anellisse Bourton e sapatos de Figarra tentavam demonstrar uma importância em suas vidas que certamente não havia. Partindo do Parque Central do anexo AlBeCo, com sua vegetação admirável e crianças brincando à beira do lago, seguia-se os grandes prédios públicos – a Intendência, a Imprensa, o Tribunal de Justiça, o Batalhão do Exército, o Corpo da Guarda – assim como os hospitais, escolas, restaurantes, cinemas, lojas e tudo o que movimentasse as bolsas e carteiras alteradas da cidade. Bem afastado do centro apenas é que se localizavam suas residências tradicionais, que seguindo as divisões de talhas pertenciam aos homens mais ricos do anexo. Homens como Horácio Flamingo, Lúcio Mattos, a própria família Ferdinozza, os Bourtons e também os Albuquerque.  
    Eram todas belas casas, com seus telhados alaranjados, jardins sempre arrumados, janelas e portas sempre fechadas e com uma ausência humana característica de residências abastadas, no entanto, nenhuma delas chegava aos pés do magnífico prédio da talha L número 4. A mansão dos Albuquerque era de longe a casa mais bela de todo Albeco e também a mais comentada por causa dos seus ilustres moradores. Miranda Albuquerque, artista plástica da capital, professora da Academia Artística e esposa de Cálibra Albuquerque, 1° capitão do comando do exército municipal. Os dois, destaques cotidianos nas revistas, apareciam constantemente em reportagens dos cadernos de cultura e política do Jornal Belém e com isso se faziam sempre presentes nas mais famosas e requisitadas festas que aconteciam pela cidade. Da mesma forma, as comemorações na moradia Albuquerquiana eram conhecidíssimas e sempre resultavam em reportagens nos dias seguintes oscilando sempre entre as páginas sociais, as de fofocas e cada vez mais frequente até mesmo nas policiais. Como na festa de despedida da filha do casal, Lina “O” ‘Burque, que partia à Inglaterra para a inauguração de sua coleção de moda pelas mãos dos Bourtons quando um dos diretores da Lemos Televisão bêbado começou a xingar e brigar com um dos homens da CCB – Corporação Cinematográfica Belenense. Heraldo Goés fez questão de publicar na primeira página do Jornal Belém sob a manchete “LEMOS NÃO AGUENTANDO REJEIÇÃO ENFRENTA CCB EM FESTA DOS ALBUQUERQUE”. Goés só queria realmente provocar o canal de televisão, após sucessivos ataques mostrando estatísticas que mostravam maior receptividade do canal somente no Complexo Hensel e cria que isso pusesse um xeque-mate em tudo, já que a CCB estava em seu auge de popularidade, com produções financiadas pelo governo e contando com participações de estrelas de Hollywood falidas financeiramente, como Ellen Miranda, como no estupendo sucesso de Amor de Marcha.
     A casa era palco de grandes situações não muito agradáveis também, como seus moradores. Viviam entre si como esfinges escondendo-se por trás de fardamentos, telas e roteiros rabiscados à lápis, como fazia a própria Miranda naquele manhã após a revelação de um novo trabalho. As horas que passava em seu ateliê viravam a noite, principalmente quando Cálibra dormia no comando militar. Depois de uma noite em claro, uma porção de papéis rabiscados pelo chão e o computador online em sua rede social, ela finalmente completou a ideia que tinha em sua cabeça há tantos dias. Epifania. Miranda já tinha se dado conta que amanhecera, pois a luz que entrava pelas janelas do quarto-ateliê iluminavam a tudo, tornando as brancas paredes do espaço paulatinamente amareladas pela luz matinal. Apanhou o celular que estava sob uma pilha de papéis e assustou-se.
     — Sete horas? — perguntou incrédula e jogou-se no computador como que para confirmar a informação. — Sete horas!
     Quando acordava Miranda apresentava o costume de massagear com as mãos todo o cabelo fazendo círculos ao redor da cabeça desgrenhando todo seu corte curto. Levantou-se da cadeira e espreguiçou-se olhando para tudo em volta. Sabia que aquilo que pensara durante toda a noite era desafiador demais para ela. Seria ele como uma tapa de desaprovação de tudo aquilo que detestava, porém, se teve a oportunidade de fazê-lo o faria. Não queria só mais um apelo estético. Agora desejava ser um sujeito de sua própria criação. Aos poucos se sentia como todos aqueles mestres da arte do passado que tanto se acostumara a ver nos documentários comprados da BBC ou Discovery que eram constantemente reprisados na Lemos Televisão. Nesse momento quem seria Miranda? Um Caravaggio ou um Rembrant? Não sabia ao certo. Tudo o queria naquele momento era coragem para expor tudo aquilo que escondia há tanto tempo. Tudo aquilo que a chocava e...
     Uma batida na porta.
     — Bom dia, senhora Miranda. Já passam das sete e a qualquer momento o senhor Cálibra estará chegando. Não seria m...
     — O.K. Matilde. Já estou indo.
     ... E a fez ser quem era hoje, infelizmente.
     Miranda espreguiçou-se novamente, desligou o computador e certificou-se de deixar sua bagunça um pouco mais arrumada. Em seguida apanhou seu hobby e saiu de seu ateliê. Sabendo que a qualquer momento seu marido chegaria achou melhor estar apresentável para recebê-lo. Era sempre assim.
    Entrou em seu quarto e sem muita paciência despiu-se completamente enquanto entrava no banheiro. Olhou-se por um tempo no espelho acima da pia e viu que sua cara estava destruída, como diria a filha que estava viajando. Sorriu. Sentou-se no vaso sanitário e urinou. Levantou-se e novamente pôs-se à pia e aos poucos desfazia a “cara de ontem” por algo um pouco mais agradável. Miranda que tinha a pele pálida passava uma cor nas bochechas e algo nos lábios para dar brilho. Seu cabelo vermelho desarrumado aos poucos modelava-se ao contorno do crânio enquanto a leves e rápidas passadas penteava-se. Estava apresentável agora, pensou. Menos, é claro pelo fato de estar nua. Olhou-se um pouco pelo espelho e por um instante imaginou-se numa tela do jeito que estava, tal qual a Vênus de Bouguereau só que mais tropical. Achou-se um máximo.
    Apanhou um vestido creme e vestiu-o. De mangas largas e um sútil decote mostrava delicadamente os seios dando a ela uma sensualidade sadia que revigorava seu dia. Desceu. O café-da-manhã costumeiramente a esperava na sala de refeições. Matilde, sua governanta, esperava-a ao lado da mesa ornamentada. Ao chegar acomodou-a na mesa e mandou os demais empregados a servirem.
     — Está resplandecente hoje, senhora Miranda! — disse a governanta de maneira bastante intrusiva, o que era comum à ela, e que  se tratava apenas de um pretexto para assim saber o que sua patroa fazia durante horas naquele ateliê.
     — Que bom! Obrigada, Matilde! Isso porque você não me viu logo cedo. Estou exausta.
     Bingo. A filha-da-mãe conseguiu.
     — Não seria bom uma xícara de chá com um pouco de mel para lhe fortalecer? Já lhe disse que chá tem mais cafeína q...
     — Que o café? Já, já. Já me disse isso várias vezes! E eu também já disse que detesto chás, não existe coisa pior... Vou querer só um suco e uma tapioquinha.  Pode ser, Matilde?
     Miranda sorriu. Matilde também. Uma já tinha se acostumado com a loucura da outra.
     —Aqui está a tapioquinha. A senhora vai querer suco de que? Temos de cupuaçu e de goiaba.
     — Matilde, querida, você já me viu alguma vez tomar suco de cupuaçu? Não? Pois bem. Mas toda vez trata-se da mesma pergunta todos os dias. Cupuaçu é pra Cálibra. Estou começando a pensar que já está na hora de você se aposentar, tilde.
     Por um momento as duas ficaram em silêncio e se entreolharam. Aquilo pareceu eterno para Matilde até que Miranda riu novamente.
     — Foi uma brincadeira, minha querida. Agora traga, por favor, meu suco de goiaba. E não me ofereça mais cupuaçu nesta vida.  Detesto esta fruta, só sentir seu cheiro me dá náuseas, creio que seja um tipo de...
    Surge uma pessoa magra, de estatura baixa entrando onde as duas estavam interrompendo.
     — Não, não é um tipo de alergia! Tudo começou e você se lembra bem há mais de 30 anos logo que chegamos em Belém. Bom dia, meninas!
     A mulher já velha, porém bastante arrumada. Com o cabelo louro armado, típico das estrelas da era de ouro de Hollywood sentou-se e servia a si mesma sem muita preocupação enquanto continuava a conversa.
     — Acredita Matilde que desde aquele episódio com a infeliz da Sarah sei-lá-o-que Miranda rejeita cupuaçu?
     Matilde balançou a cabeça confirmando.
     — É claro que sabe, mas se esquece, senão não ficaria todos os dias oferecendo a minha filha aquilo que ela não gosta. Pois bem: Quando tudo aquilo aconteceu, quando eu percebi que aquela garota estava grávida e cumpri meu dever como boa cidadã que sou ligando para a polícia, Miranda percebeu que tudo aquilo tinha sido gerado por causa de um copo de suco de cupuaçu. — A mulher apanhou uma jarra de metal de despejou um líquido amarelo claro sobre um copo. Acenou com a cabeça olhando para a filha sorrindo — Apesar de criança sempre foi inteligente. Puxou a mim, menos em Matemática para o meu desgosto. Creio que por isso também quis cursar arte, não é meu bem? — sorriu sem graça junto a Miranda. — Ficou traumatizada com isso também?
     — Quem sabe, não é Ellen Miranda? — respondeu Miranda.
     — Parafraseando Bollãnos, — começou Ellen enquanto segurava seu copo de suco de cupuaçu e guiando em direção a boca e em seguida bebendo-o. — diria que só os culpados respondem uma pergunta com outra pergunta. — finalizou.
     O que ela está pensando? disse a si mesma Miranda.
     — Falando em culpados... onde está seu marido?
     — Trabalhando como sempre. — respondeu Miranda sorrindo mentalmente. Vá ao inferno.
     — Como sempre? — sorriu. — Essa é muito boa, não é Matilde? — Matilde continuou sem expressar nada ao lado das duas como a mulher de Ló ao olhar as cidades sendo destruídas. — Só espero que não faça mais nenhuma besteira nem que chegue tarde demais. Hoje temos uma entrevista com uma tal de Rochelle Nanquim às onze.
     — Rochelle Nanquim? Quem é?
     — Deve ser alguma estagiáriazinha de dezesseis anos magricela do Jornal Belém. Nunca ouvi falar... É com essas e outras que vemos que estamos decaindo. Uma estagiária!
     Miranda preferiu não dar prosseguimento na conversa. Rochelle Nanquim! Também nunca ouvira falar. Não tinha problema nenhum com estagiários, pelo contrário da mãe que tinha se acostumado na juventude a estar a cada noite em um talkshow diferente e agora na maturidade – que nada mais é um nome menos vulgar que velhice para Ellen – ser cada vez menos constante nas mídias. Nesse momento o que a intrigava mesmo era o nome. Nanquim? Miranda não aguentou e deu uma risada.
     — Verdadeiramente, não prestas Ellen!
     A mulher olhou para Miranda. Pôs um cigarro na boa e acendeu-o.
     — Muito mais você sendo minha filha!
     As duas caíram na gargalhada. Matilde acompanhou tudo em silêncio. “Essas duas”, pensou.
           
    


Capítulo 5 “Estudem e republicam fazendo filhos”



     Lana pegou um livro, ligou a televisão e se jogou no velho sofá da sala. Fazia muito isso. Detestava ler em total silêncio e nesse horário passava o noticiário que gostava. Fazia as duas coisas juntas. Helena ainda dormia e assim, nesse momento ainda conseguia um pouco de sossego. Esticou as pernas sob o braço do sofá cinza e deitada começou a ler.  Depois de ter terminado alguns de seus afazeres recostou a cabeça para descansar. Lia Acauã, um dos contos paraenses prediletos que foi pedido por sua professora de Literatura Berna Toutou. Ela gostava. Na verdade já o havia lido antes, porém com as obrigatoriedades da disciplina escolar ela o relia. A história de Ana e Vitória a deixava bastante intrigada. O suspense dado por Inglês de Sousa não a permitia parar a leitura. Ela adorava isso.
     Lana aprendeu a ler bastante cedo, com Júlia, sua mãe falecida, antes mesmo de começar a Cartilha. Desde lá não parou. Adquirir livros era algo que almejava fazer, porém quase não o fazia, pois com a criação do Novo Estado de Antonio Ferdinozza os preços subiram bastante, possuir livros custava caro, mas mesmo assim ela apresentava em sua coleção um total 10 livros, o que era muito para alguém de Hensel. Todos já bem velhos, com capas amassadas se desfazendo e páginas amareladas... somente Inglês de Sousa que lia é que era novo. Ganhara na escola juntamente com seus colegas para as aulas de Literatura Paraense. Berna Toutou exigia que todos lessem. Isso não era nenhum problema já que ela terminava o livro antes de todos.
     É uma pena que seja tão curto. É tão intrigante. O que na verdade é Vitória? O que ela esconde? É tudo tão explícto e ao mesmo tempo tão oculto...
     O hino de Belém começou a tocar pelo televisor. Era o momento das notícias do Centro. Como sempre, na abertura do vídeo mostrava-se a vista aérea da cidade. A margem histórica dos prédios muito antigos que ainda se mantinham de pé se sustentando ainda que frágeis pelas caixas de vidro, os antigos e por último: como que mostrando o progresso alcançado pelo novo governo com suas construções gigantescas em vidro, concreto e ferro. Em nenhum momento mostrava nem que fosse ao longe, o antônimo de tudo isso: o Complexo de Ilhas Hensel. O hino encerrava e surgia um homem bastante familiar na imagem distorcida da tela. Antonio Ferdinozza.
     — Queridos amigos, queridas amigas. Estou aqui para mais uma vez prestar contas a você o trabalho que temos realizado em nossa cidade. Faz um pouco de tempo, mas creio que os mais velhos devem lembrar como era a nossa cidade. Era entregue ao abandono. Vivíamos entre as moscas do lixo, sem nenhuma posição diante da nação. Mas graças a Bernardo Antueiras tudo isso mudou. Não foi necessária nenhuma revolução e nenhum derramamento de sangue para que o povo entendesse o que era melhor para si. Muita coisa mudou durante esses vinte e cinco anos de nosso governo. Temos trabalhado bastante para todos. E principalmente para quem mais precisa. A taxa de desempregos tem se...
     Ferdinozza aparecia todas as manhãs no intitulado "Bom Dia Belém" onde ele mesmo era o apresentador, roteirista e chefe, e este último como em tudo o que passava na tevê. Ele aparecia sempre impecável, com seu terno azul-marinho e gravada vermelha e de maneira bastante polida e gentil contava aos telespectadores de toda a cidade as ações feitas na cidade, o que quer dizer no Centro. Alice apreciava até certo ponto assistir o programa, pois a transmissão ela podia se deixar enganar. Crer durante trinta minutos que tudo aquilo era verdade, que ela vivia bem em Hensel e que tudo aquilo que Ferdinozza falava acontecia.
     — Temos trabalhado muito para todos, mas principalmente aos que mais precisam.
     Mas não acontecia. Olhou mais uma vez para o mentiroso que retribuía-lhe o olhar e desligou o aparelho. Lana parou e olhou tudo em sua volta e tomou um grande susto ao ver sua irmã a olhando fixamente.
     — Que susto! Helena! — berrou Lana contraindo a mão ao peito para se acalmar. — Bom dia, Lena. Você quase me mata de susto. — sorriu. — Vamos, vá lavar o rosto e depois venha tomar seu café. Anda, mocinha. Já dormiu o bastante hoje pra nós duas.
     Helena obedeceu. Lana foi prontamente preparar o café da irmã.  Como em todos os dias, leninha sempre tomava uma tigela de mingau aveia. Era seu prato favorito. O problema era que na maioria das vezes tratava-se apenas de água quente e flocos de aveia. Mas não fazia mal, pelo contrário, Helena já estava tão acostumada com a carência que já preferia o mingau sem nada.
     — Helena, aqui. Seu mingau. Tem um pouco de café e torradas também. Vamos rápido que você ainda tem que estudar sua cartilha hoje. Tem estudado?
     A menina deu de ombros.
     — Helena, tem que estudar. Ano que vem você já faz o teste e se você não passar já sabe como papai vai ficar. Você tem que se esforçar. Coma logo isso aí que eu quero você já já estudando.
     Lana era péssima em dar broncas. Helena sabia disso, mas justamente por isso resolver obedecer a irmã. A cartilha era muito importante para qualquer um que quisesse um dia ter a chance de sair de Hensel. Muito mais que isso era o teste.
     Todas as crianças, meninos e meninas, recebem aos quatro anos de idade uma cartilha que nada mais é que um enorme livro que é uma espécie de enciclopedia escolar. Não há escolas em Hensel e por este motivo todas as crianças recebem a Cartilha, como é chamada, para estudarem até os doze anos. Aos doze anos todas elas fazem um teste. Uma prova com inúmeras questões para delimitar quem avançará para prosseguir os estudos. São poucas as crianças que passam. Lana foi uma delas há sete anos. Com sua nota conseguiu continuar e entrar na escola secundarista. Trata-se de um curso de quatro anos intercalado com três de recesso. Seu curso estava para concluir no ano próximo, mas mesmo assim Lana não nutria muitas esperanças de conseguir sair de Hensel. Ficava cada vez mais claro em sua mente que tudo isso era apenas mais uma estratégia para dominar o povo de Hensel com falsas esperanças.
     Helena terminou seu café da manhã, depois de comer algumas torradas e foi até a Cartilha. Era um grande livro vermelho com a capa ilustrando um homem vestido de terno azul-marinho, gravata vermelha e um terno olhar enquanto lia a duas crianças, um menino e uma menina. O homem era Ferdinozza. No topo, tinha a inscrição "Cartilha de Estudos Primários" e logo abaixo, em latim, "Studium in rem publicam faceret filios". Lana jamais soube o que significava aquilo de verdade, mas enganava a todos quando dizia que era um conselho de Ferdinozza às crianças: "Estudem e republicam fazendo filhos". Todos acreditavam.


Capítulo 4 “Cupcakes”



     — Alice! — a voz irritada percorria todos os corredores da casa. — Onde está essa garota? — A mulher que subia e descia todas as escadas parou. — Alice Miranda Dias. Não vou mais atrás de você. — Nesse momento assumiu um tom ameaçador. — Só lhe digo uma coisa: se quando aquela campainha tocar você não estiver sentada na sala de estudos, você vai se arrepender, mocinha. — finalizou.
     A mansão dos Miranda estava esplendorosa naquele dia totalmente claro. A casa com suas paredes e teto brancos dava ao ambiente um ar de neutralidade que certamente não havia entre seus moradores. A mobília, elegante, com suas réplicas de cadeiras Luís XVI acolchoadas, tapetes indianos, adornos, e quadros com telas e retratos dos mais diversos artistas sintetizavam em um único olhar o brilho desta família na sociedade belenense.
     Alice tinha nove anos. E como sempre, comparada a outras garotas da mesma idade lhe davam uns oito, talvez até sete anos. Apesar de ser bastante comportada e obediente neste dia ela estava impossível. Tinha tirado insuficiente em Matemática, pela segunda vez consecutiva. O que deixava sua mãe ainda mais irritada e mais dependente do cigarro. Ela bebia e fumava muito neste tempo, por inúmeros motivos, talvez o menor deles fosse realmente a nota da filha, porém, sua ira se recaía totalmente sobre a menina. 
     Ellen contratou uma instrutora de matemática para auxiliar Alice no que fosse necessário. Suas notas tem que melhorar. O que seu pai vai falar de mim? Que não sei nem fazer minha única filha tirar notas boas na escola? Ellen estava totalmente fora de si. E sabia disso. Trate de melhorar já!
     Apesar da pouca idade Alice entendia isso e fazia o possível para confrontar a mãe, ao máximo até levar um tapa. Alice conhecia a mãe, e ainda que descontrolada, sabia até onde poderia ir. Por isso estava se escondendo para não descer até a sala de estudos, não era por não querer ter ajuda da instrutora, não, era para testar Ellen.
     — Alice! — gritou a mãe mais uma vez. Deu mais um trago no cigarro e continuou. — Não vou falar novamente!
     “Ok, já chega” pensou Alice. “A qualquer momento a instrutora pode chegar e mamãe não vai perdoar.” A garota saiu silenciosamente de seu esconderijo, apanhou seus cadernos lentamente e correu escada abaixo bruscamente indo em direção à sala de estudos. Sentou-se na poltrona vermelha que ficava no canto da sala, arrumou o enorme vestido vermelho de bolinhas brancas. Era uma boneca vestida assim, de sapatos pretos lustrosos com meias brancas e fita no cabelo claro. Uma boneca bastante astuta.
     Ding-dong. A campainha tocou.
     Sortuda, pensou Alice sorrindo.
     Que filha-da-mãe sortuda, sussurrou a mãe.
     Ding-dong.
     A porta se abriu. A silhueta de uma mulher alta, de cabelos cheios e negros, bastante bonita, com um sútil sinal acima do lábio superior acentuando isto, segurando uma pasta de couro surgiu em meio à claridade daquela manhã ensolarada que envolvia toda a casa.
     — Você deve ser a instrutora de matemática, certo? — perguntou Ellen no topo da escadaria que dividia o salão principal ao meio. Conforme descia a escada encapada com um tapete vermelho, a mulher dava incontroláveis sorrisos tortos enquanto dava mais e mais tragos no cigarro que finalmente chegava ao fim. — Que bom que chegou senhorita?
     — Sarah. Sarah Viana. — completou a jovem sorridente de maneira bastante educada.
     — Sim, sim. Senhorita Sarah saiba que se parece bastante com uma amiga muito próxima dos tempos em que trabalhei em Hollywood. — Ellen falava com um tom de menosprezo e amorosidade bastante característico dela. Era como se não estivesse em si. — Saiba, o seu trabalho é muito difícil hoje... você vai ter que fazer minha filha aprender matemática. — gargalhou.— Boa sorte, desde já. É só seguir por este corredor. Ela está aguardando você na sala de estudos. 
Ellen ergueu o braço trêmulo pelo desconforto causado pela bebida e o fumo, depois puxou novamente o laço que prendia o seu hobby de seda ao corpo, fez outro nó e saiu. Sarah seguiu seu caminho pelo corredor indicado sem dúvidas. A sala de estudos ficava ao final do corredor. A porta estava entreaberta e sabia que a garotinha que daria aula estaria lá esperando-a. Seu desconforto só vinha quando mirava as paredes. Cercada de rostos dos mais diversos, encaravam Sarah como se soubessem seu segredo. Será que eles podiam imaginar?
     Ela abriu a porta. Alice estava lá sentada em sua poltrona com seu caderno. As duas se encararam por alguns segundos. Sarah sorriu. A garota retribuiu.
     — Bom dia, meu bem. Meu nome é Sarah. Sua mãe me chamou para ajudá-la em matemática. Tem tido dificuldade, não é mesmo? — começou calorosamente tentando esquecer toda a sua preocupação.
     — Um pouco. Eu sei fazer as contas, mas na hora da prova me dá um branco.
     As duas riem.
     — Então nosso trabalho hoje é apagar esse quadro branco da sua mente, docinho. — prosseguiu. — Vamos lá!
     Sarah a levou até a mesa e começaram a fazer alguns exercícios. O tempo foi passando paulatinamente. Sarah percebeu que Alice na verdade não tinha dificuldade alguma em matemática. As duas respondiam mais e mais problemas de matemática até um toque na porta as interrompe em meio ao cálculo do resultado das somas, subtrações, multiplicações e divisões de inúmeras maçãs, laranjas e carros.
     — Com licença, minhas queridas. — Era Ellen novamente. Finalmente estava sóbria e sem nenhum cigarro nas mãos, em vez disso, trazia em uma bandeja prateada uma jarra de suco, alguns copos e cupcakes rosas enquanto entrava na sala. — Às vezes, gosto de fazer algum serviço doméstico para me acalmar. Preparei esse lanche para vocês, minhas matemáticas. Senhorita Viana? — interrogou Ellen enquanto colocava a o lanche na mesa de estudos. — Conseguiu enfiar algum número nessa cabecinha?
     — Pelo contrário, senhora Miranda, não precisei fazer praticamente nada. Alice é uma menina inteligente e sabe matemática muito bem. Creio que só fica nervosa na hora da prova, mas trabalhamos isso hoje.
     — Ah, é? — retrucou sem acreditar. — Se é dessa forma não preciso lhe pagar, certo? — gargalhou. — Bom, então lanchem pelo menos. Volto já.
     Sarah olhou para aquele lanche. Suco e cupcakes. Suco de cupuaçu e cupcakes rosas. Parecem ótimos, pensou. Ou não. Seu estômago revirou quase que instantaneamente. O cheiro forte da fruta trazia uma sensação horrível seu nariz.  Abruptamente, para tentar conter aquele enjoo que estava a jovem apanhou um dos bolinhos e deu uma mordida. Tomara que eles diminuam. Ellen percebendo algo estranho no comportamento da jovem volta-se ao encontro das duas. 
     — O que está havendo?
     O apetitoso cupcake rosa com confeitos coloridos que tinha apanhado era recheado com doce de cupuaçu.
     — O que foi senhorita Sarah? Não gosta de cupuaçu?
     Seu estômago não aguentou nem receber o alimento. Ainda tentando segurar a ânsia, ela não aguentou e acabou por vomitar no tapete do salão.
     — Oh, me desculpe! Perdão, senhora Ellen, foi sem querer.
     Alice observava tudo atônita, sem entender muito bem tudo aquilo que estava acontecendo ali.
     — Por favor, pode deixar! Não se preocupe com isso. Mandarei alguém ver isso já. — Ellen apanhou um copo e olhando fixamente nos olhos de Sarah encheu-o de suco. Se a filha, a bonequinha astuta de vestido vermelho quando queria a mãe o era permanentemente. Nesse momento os olhos de Ellen pareciam captar algo intangível, como que só existe entre ela e Sarah. Como um experiente caçador olhando ferozmente sua presa e planejando um futuro ataque, a mulher desvendava o maior segredo da instrutora, que era revelado por seus olhos marejados e sua expressão como de alguém que é pego fazendo besteira em flagrante. — Que coisa estranha não? Nunca vi tremendo enjoo. — sorriu às meninas e tomou um gole. — Não. Na verdade já, isso mesmo! Quando estava grávida de Alice tive um enjoo tão forte ao sentir cheiro de manga que quase vomito no senhor Miranda. — gargalhou ela com o olhar preso à Sarah. Ellen parecia como uma serpente se aprontando para dar o bote. Sorrindo, continuou: — Está grávida, senhorita Sarah?
     Ela não respondeu. Começou a tremer e compulsivamente a chorar.
     — Oh! Olha só isso. Como diz o ditado: quem cala, consente. É uma grande pena! — Sarah se pôs a chorar alto e dar soluços, e como se estivesse tendo um ataque de febre começou a tremer. — Não vejo aliança na sua mão, Sarah. Realmente, é uma pena!
     Ellen pegou o telefone. Sarah sabia o que ela iria fazer. Sabia o que faziam com todas que se atreviam a engravidar sem estarem comprometidas. Não havia mais tempo para choro, tinha que agir de alguma maneira. Sarah notava pela suavidade da voz de Ellen que de alguma forma ela estava feliz com tudo isso. Entregar alguém ao governo deve ser realmente muito bom. O reconhecimento. O corpo de Sarah estremeceu novamente. Abruptamente como que por instinto tirou o telefone das mãos que começavam a enrugar de Ellen e sem se dar conta começou a lançar tapas e empurrões à dona da casa. Agora era ela mesma que estava fora de si. Ellen caiu no chão. Sarah em disparada correu. Correu porque sabia que se ficasse ali a chance de sobreviver seria zero. Não teria chance alguma. Ela não estava mais sozinha, encontrava-se responsável por dois agora e deveria fazer o impossível para sobreviver, ela e o ser que estava abrigado em seu ventre, seu filho, o máximo de tempo que conseguisse, vivos. Nem que para isso tivesse que fazer coisas terríveis.
     "O desespero traz isso às pessoas. A ausência total da realidade." falou Ellen dirigindo-se a filha enquanto levantava-se do chão e apanhava o telefone novamente para ligar à polícia. "Veja muito bem isso e saiba desde já o triste fim que sua amável instrutora vai ter: a morte!", berrou a mulher.
     Ellen deu uma volta pela sala de estudos, olhou a cada coisa enquanto a ligação completava e encontrou o que queria. Uma bolsa de couro marrom estava colocada por sobre a poltrona vermelha. Louca, Ellen gargalhou: — Ora, ora, ora. Vejamos o que encontramos aqui. Hum. Pobre menina!
     A mulher puxava da bolsa uma carteira, a carteira de Sarah.

— Senhor policial, a vadia se chama Sarah Marques Viana, 22 anos. Avenida 30, número 456.

Capítulo 3 “A suave face rubra de Alice”




     Alice estava desolada, e pior: sozinha naquele quarto imenso. Não sabia como lidar com o fato ocorrido. Apesar de já ter ouvido pela boca da própria mãe diversos casos semelhantes. Minha mãe! Ainda mais para ela. Já estava permissiva à sua vida pública junto à mãe, porém nesse caso seria algo terrível. Um caso de morte. Talvez até mesmo duas mortes! Como fui estúpida!
     Ela se culpava. Culpava a Hugo. E chorando percebia que era tudo uma grande mentira: não havia culpados. O pior era que estava só nisso tudo, não podia confiar em ninguém. As pessoas são sempre muito fiéis a Ferdinozza. Seu choro aumentou.
     “Você precisa se controlar. Todos vão acabar percebendo assim.”
     Demorou, mas aos poucos ela mesma se consolava. O efeito era mínimo, mas já era alguma coisa. E o rosto dele não saía da sua mente. Pegou o celular que estava no criado-mudo. Os dedos deslizavam por diversos contatos da agenda... Anne... Célio... Dora... Hugo. O rosto dele aparecia também ali. Sorrindo ao seu encontro. Desistiu. Deveriam conversar pessoalmente. Nesse momento seu corpo ganhou um enorme peso e só pôde deixar a gravidade tomar conta do resto. Jogou-se na cama. Dormiu.

     Alice estava no terceiro ano do curso de Artes no Instituto de Artes de Belém. Isso foi um problema para ela desde o início. Sua família que rondava pela a elite da cidade era bastante conceituada para ter uma filha estudante de artes. Poderia ser outra coisa? Diziam eles. Literatura ao menos, vire uma escritora. A jovem relutava bastante aos caprichos dados, sobretudo ao pai, mas no fim optou por estudar. Era radiante. Tinha plena certeza que era isso que queria, não tinha sombra de dúvidas.
     Não consigo entender papai e mamãe. Porque esse assombro tão grande a minha vontade de cursar artes? Pelo menos mamãe deveria entender. Não vejo nenhum hensel ao menos andando em volta do colégio. Todos os estudantes são de nossa classe social. São filhos dos mais variados homens e mulheres mais ricos da cidade. Não há como negar. Hoje mesmo, em nosso primeiro dia de aula vi entrar em uma das salas uma jovem que com certeza era filha de alguma atriz de teatro. Lembro porque quando fui ao da Paz vi uma moça muito parecida com ela enquanto voltava pra casa. Não há nada de errado comigo ou com a Arte... Muito menos a Arte...Mas foi muito bom. Nosso primeiro dia foi bastante instrutivo. Conheci duas jovens que parecem ser bem decentes, creio que mamãe não fará nenhum drama se convidá-las para ir à nossa casa algum dia. Nossa orientadora é ninguém menos que Silvana Barros, aquela artista que contei certa vez sobre o grande painel de um jardim holográfico. Ela é muito mais agradável pessoalmente. São todos tão interessantes. Fico pensando sabe... Será que vou ser como eles daqui há um tempo?           
     A resposta era um pouco confusa, pois Alice já era alguém desde seu nascimento. Mas no seu íntimo ela queria algo mais. O curso seguiu a passos marcados e ela mergulhava bastante no mundo artístico de Belém. Visitava muitos museus, exposições, galerias e também teve de lia bastante coisa. Conheceu muita gente nova, gente diferente, pessoas de todos os tipos. Ela os achava estranhos, mas gostava de estar com eles. Suas amigas também eram bem diferentes dela. Ela meio que gostava disso.
     Certa vez foram visitar uma exposição. Doze de junho. Como sempre acontecia foram de carro Diana, Anne e Alice. Diana era uma jovem alta de pele morena, cabelos ondulados coloridos e olhos bem marcados pela quantidade excessiva de maquiagem prateada que usava, era a comediante do trio. Anne também era bastante diferente daquilo que Alice conhecia anteriormente. Tinha os cabelos cor de cenoura, lisos, na altura da cintura e usava roupas bem coloridas. Era a mais inteligente das três, ou melhor, a mais experiente. Alice era a mais calada. Tinha estatura mediana, cabelos loiros, claros, olhos verdes, e expressava em todas certa imagem de pureza em que nelas não havia, por isso, trocistas, chamavam-na de Aurora.
     
     Diana estava demais entusiasmada para que fosse com elas naquela exposição. Isso era notável, já que não se deixava olhar nenhuma obra sequer, caminhando sempre a nossa frente e, reclamando, nos mandando acompanha-la. Queria me apresentar a alguém... Hugo. Foi nesse dia em que o conheci. Enquanto visitávamos a exposição de Guilhermo Torino ela correu em sua direção, puxou-o pelo braço e sem tanta graça disse: “Hugo, quero te apresentar a minha amiga Alice.” Não era a primeira vez que tanto Diana ou mesmo Anne me aprontavam algo assim... Meu rosto logo ficava corado por não saber o que fazer, mas antes que isso pudesse acontecer o recém-conhecido apenas estendeu a mão e me cumprimentou. Saudou também a Anne, penso que já eram conhecidos. Ele nos chamou e resolveu nos apresentar a exposição. Ao contrário do que normalmente acontecia ele realmente era alguém que parecia gostar de arte. Não era um daqueles que estavam sempre despenteados e com um cheiro de álcool a metros de distância. Bastou nos afastarmos um pouco dele e Anne me perguntou: “E aí, gostou dele?” Eu ri. Lembro-me como se fosse hoje. Depois desse dia eu e Hugo ficávamos cada vez mais juntos. A companhia dele me agradava e creio que também a minha a ele.
     Não demorou muito para começarem a pensar que estávamos namorando. Não digo que era mentira, pois ainda que subliminarmente já nos amávamos. Os dias em que saíamos mais cedo ou até após as aulas, eram sempre momentos livres em que desperdiçávamos juntos. Hugo trazia a mim algo diferente que ainda não havia experimentado. Ele demonstrava-me bastante segurança em suas palavras. Como eu, Hugo tinha inúmeras queixas ao governo de Ferdinozza. Sua beleza emoldurada pela juventude e sua retórica encantavam-me aos poucos. Hugo personificava naquele momento tudo aquilo que eu buscava em alguém. Era perfeito.
     — Não somos nós, Alice, é isso tudo. — disse ele certa vez.— Querem nos fazer acreditar que isso aqui é tudo. Eles estão construindo muros e mais muros, cercas e mais cercas para nos isolar do restante. Renato disse-me que estão construindo também um campo de trabalho nas ilhas. Isso é errado. — completava ele como um revolucionário anônimo da internet.
     Eu amava isso tudo. Hugo me falava coisas que me faziam crer que era possível um mundo diferente. Sem tudo aquilo que meus pais queriam tanto sustentar. E foi isso que me fez tornar oculto todo o meu relacionamento com ele. Hugo me encantava com suas belas palavras e cada vez mais nos envolvíamos.
     — Você sabe né, Alice? Espero que tenha percebido já. Eu te amo. — começou ele quando fomos a um parque no centro e ficamos horas conversando deitados na cama. — E isso não é qualquer coisa, ainda mais vivendo aqui. Você me ama? — Confesso que era boba e sem lhe falar nada encostei lentamente o seu rosto no meu e trocamos um beijo. Será que ele entenderia como um “sim”? — Isso é maravilhoso mesmo nessas circunstâncias. Eu te amo. — beijamo-nos novamente.
     Depois desse dia estava totalmente entregue a Hugo.
     E ele sabia disso.
      Já tinha escurecido quando Alice acordou. Seus olhos ardiam e teve de ir piscando lentamente até a visão voltar ao normal. Apesar de todo o choro de mais cedo ela estava bem. Ligou as luzes do quarto e pôde se olhar no enorme espelho da parede. Seu semblante estava caído. Não estava bem. Alice sabia que tinha de tomar uma decisão urgente. Não conseguiria guardar seu segredo por muito tempo. Precisava falar com Hugo, afinal ele também estava nisso. Pegou novamente o celular e mandou uma mensagem de texto: “20h PBC”. Queria encontrar-se com ele em algum lugar movimentado, uma praça era a melhor opção. “Ok :)” ele respondeu em seguida.
     Hugo está digitando...
     Alice ficou off-line. Não podia conversar com ele agora. Não queria. Só conseguia pensar no problema que tinha se metido e na consequência que poderia trazer a ela. Ouviu sua mãe dizendo em sua mente: “Lembra-se da Srta. Sarah Viana?”
     Sarah Viana?
     Alice saiu às pressas. A praça não ficava longe, mas preferiu ir de carro. Não a ninguém que sairia. As ruas passavam por ela conforme acelerava o carro de forma que todo o ocorrido fosse embora juntamente com as casas e as pessoas pelo caminho. Em vão. Pelo contrário, na fragilidade da garota tudo aquilo voltava na mente da jovem e a manhã seguinte sobreveio a ela de maneira cruel.
     Sua menstruação já estava atrasada há uma semana. Isso nunca tinha acontecido desde a primeira que sangrara. Entre todas as amigas era a única que recebia sua visitante mensal com dia e hora agendados. Três dias e nenhuma surpresa. Nesse mês a surpresa chegou por três dias também, mas de ausência. Preocupada, leu na internet que o atraso é normal e consequência das irregulares taxas de hormônios que demoram a equilibrar-se para assim causar a menstruação. Isso a acalmou um pouco, porém os dias foram passando e nada chegava. Alice estremeceu, pois com mais de uma semana só haveria outro motivo para o atraso. E ela sabia exatamente qual era. Inúmeras sensações passaram pela sua cabeça. Alice e Hugo dormiram apenas uma vez depois de dez meses de namoro e tal coisa só ocorrera porque sabia que não estava em seu período fértil. Quanta baboseira! Não podia ser. Muito pior do que saber da possível gravidez naquela circunstância era suportar tudo aquilo sozinha. No dia seguinte comprou um teste de farmácia, um de coleta sanguínea. Alice espetou o dedo e apertou-o ainda sangrando na extremidade macia do pequeno aparelho plástico. 99 % DE CONFIABILIDADE dizia a embalagem. Aguardou. Uma bolinha, não, um tracinho, sim. Uma bolinha, não, um tracinho, sim. Uma bolinha, não, um tracinho, sim.
     Tracinho.

     Chegando ao local combinado pode enxergar Hugo de longe. Bastou um segundo e ela esqueceu toda a raiva que estava sentindo. Ele está tão bonito, pensou. Ele se aproximava como um tigre caminhando pela savana, de maneira bastante tranquila, mas imponente. Ele tocou em seu rosto e a beijou. Um beijo que tocou profundamente os dois. As pernas de Alice tremiam. Ele, percebendo seu desconforto perguntou.
     — O que aconteceu, amor? — perguntou aproximando-se para mais um beijo que ela recusou virando o rosto. — O que aconteceu?
     Com a pergunta, ela voltou a si:
     — Hugo, e-eu não se-sei nem falar. Estou a-assim desde-de manhã, precisava falar com vo-você. — Alice parou por um momento e respirou fundo. — E-eu es-estou gr-gr-grávida! — Alice começou a chorar compulsivamente. Ele a agarrou nos braços e a abraçou forte enquanto acariciava seus cabelos loiros.
     — Não chore, Alice. Calma.
     Que droga, pensou ele.


Capítulo 2 “Ponto de Trabalho”


     As paisagens coloridas se desfaziam rapidamente da vista de Sérgio. Os casebres feios de telhado baixo, sem reboco e com os tijolos aparecendo que são características em Hensel ficavam cada vez mais distantes e davam lugar a uma vegetação rasteira e com poucas árvores. O dia que finalmente estava nascendo iluminava todo o ambiente de maneira bem desigual. Os raios de sol nascente aos poucos rasgavam a escuridão da noite anterior, permitindo a expressão de inúmeras tonalidades. O céu passava gradualmente do azul-marinho ao rosa e por último, ao amarelo. A vista que circundava aqueles grandes ônibus acabados de sair do TC impressionava aos olhos de qualquer um. O orvalho que aos poucos desaparecia por entre as árvores baixas trazia de volta a nitidez do espaço, apagando qualquer resquício do que antes era nublado. Ele sabia o que isso queria dizer. Já estava chegando na ponte. O campo de trabalho de Hensel era interligado à Belém por meio de uma ponte. Uma enorme ponte de concreto e cabos de aço sobre o rio largo de águas barrentas que circundava toda a ilha. A ponte era o único meio de entrar ou sair daquela ilha.
     A viagem seguia em silêncio. No ônibus separado aos homens podiam-se classificar três ações da maioria deles: tinham aqueles que continuavam no celular jogando ou na internet, os que liam alguma coisa e os que aproveitavam a longa viagem para cochilar. Nesse momento, porém, Sérgio não se enquadrava em nenhum destes. Já se cansara do Monummental Crush há alguns minutos. O silêncio resultado pelo ônibus elétrico automatizado e sem motorista permitia a ele pensar. Não que ele quisesse fazer isso, mas era impossível, sentia como se aquilo fosse mais forte do que ele. O ócio sempre lhe concedia a pensar na mesma pessoa.
     Júlia.                                     
     Quanta coisa mudou durante estes anos, pensou. A luz do sol que ficava cada vez mais forte batia em seu rosto e o refletia na janela do automóvel. Seu rosto ainda que se mostrasse disforme no vidro, refletia apenas ela na verdade. A ponte juntamente com o rio apareceram e Sérgio foi levado inesperadamente há dois anos.
     Ouve-se Elis Regina por toda a casa. O dia está ensolarado e a luz abundante entra pela janela como naqueles filmes românticos do séc. XVII, no estilo de Razão e Sensibilidade. A voz emitia agudos tão belos que traziam ao mesmo tempo alegria e êxtase. Sérgio está de folga nesse dia e prepara o almoço. Ele sorri e cantarola desafinado. Ele não dá a mínima, pelo contrário, chega até mesmo a balançar o corpo no ritmo da música, totalmente desajeitado. No fundo musical percebe os gritos e gargalhadas das garotas, Lana e Helena, que brincam no quintal. É perfeito. Ou quase. A qualquer momento Júlia chega...
     Toc, toc, toc. Não era ela, pensou.
     Toc, toc, toc. Eram batidas impacientes, persistentes.
     Toc, toc, toc. Sérgio caminhou até a maçaneta e girou-a.
     Tudo mudara. Passando a ponte de Hensel a paisagem mostrava-se bem diferente. Havia muros por todo lugar. E pontos de vigilância com homens armados.
     Toc, toc, toc.
     A porta se abre. Quem? Um casal está posto na soleira da sua casa. Pelo modo que estavam vestidos e pelos os olhos curiosos vasculhando cada centímetro da casa, com certeza vinham de Belém, o que é bem estranho.
     — Olá, senhor Sérgio Eduardo Augusto Sousa?— começou a mulher de olhos pequenos e voz anasalada — Er...Bom dia! Meu nome é Renata Novaes, sou da Secretaria de Trabalho de Complexo Hensel. E este é o senhor Abelardo Torino, policial do Centro. Precisamos conversar. — continuou desajeitada.
     Elis parou de cantar naquele momento. E tudo começou a andar mais rapidamente na mente de Sérgio. Uma nova música recomeçou, um melancólico solo de piano acelerado como a visão.
     — Sua esposa, a senhora Júlia do Nascimento Sousa sofreu um acidente de trabalho. — prosseguiu o homem bruscamente. — Infelizmente, — engoliu em seco — ela veio a falecer.
     O tom seco que saiu dos lábios finos do policial do centro destruiu toda a beleza daquele dia de sol.
     Acidente? O que aconteceu? Faleceu? Ele gritou com uma força tão grande como se uma lança fumegante estivesse transpassado seu peito.
     — Gostaríamos apenas que fizesse o reconhecimento do cadáver...Está no porta-malas da van...Faz parte do nosso protocolo — gritou também a mulher com a frieza do policial. A morte de qualquer pessoa de Hensel não comovia ninguém, muito menos alguém do centro. — Pode nos acompanhar?
     Voltando a si ele balançou a cabeça afirmativamente. Andou alguns passos em direção à van. As portas traseiras se abriram. Era ela. O corpo já pálido estava inerte em um caixote cinza. Ele não pode aguentar e começou a chorar. Não era um choro qualquer, era algo incontrolável que mesclava-se com gritos e soluções que em vão tentava conter apertando suas mãos contra o rosto em pranto.
     Júlia...não pode ser...Júlia? Olhe para mim.
     Ainda que implorando, era tudo em vão, o corpo não respondia. Nesse instante a porta da casa se abre e vindo em direção a ele está Lana com Helena nos braços sem nada entender. Sérgio respirou fundo e disse:
     — P-por fa-favor, fechem isso! Não quero que minhas meninas vejam a mãe delas assim. Elas não aguentariam. — disse ele baixo. Os dois obedeceram. Deram-lhe um cartão para que pudesse entrar em contato mais tarde. Não entendendo nada que lhe falavam ele apenas balançava a cabeça. Não estava ali. — Eu entro em contato.
     Shhhhhhhhhh. O ônibus parou.

     Sérgio voltou a si. Estacionado estava sendo levado pela correnteza que o empurrava para fora do ônibus. Todos eram retirados de um por um, todos eles, no mesmo momento em que eram organizados em filas pelos guardas vestidos de branco.  Para esse feito não desprezavam dar uma boa pancada nos ombros dos que relutavam a se organizar. O sol estava forte e as meias grossas já não serviam para nada. Era um local amplo onde estavam.
     Um grande quadrado de cimento no meio do Centro. Toda vez é a mesma coisa. Os guardas, a pancadaria, a fila. Agora só falta o chefe da guarda... O capacete azul. Onde está ele? Ah, ali.
     O comandante Cálibra Albuquerque chegava até eles. Era um homem ordinário. Branco, com uns quarenta anos, de feições comuns e um estranho bigode retangular aparado por cima dos lábios. Sérgio o conhecia das outras inúmeras vezes em que foi trabalhar no centro. Cálibra era admirado por toda a corporação. Usava capacete azul claro para se destacar de toda a multidão branca. Era ele o responsável pela a distribuição de todo o trabalho de Hensel à Belém. Ele adorava isso.
     — Senhores, sou o comandante Cálibra Albuquerque e líder da guarda que os acompanha. É muito bom ver todos vocês aqui dispostos para o trabalho. Temos muitas ofertas de trabalho em Belém, precisamos de todos, porém... Faremos uma breve seleção. Necessitaremos de homens que saibam trabalhar com construção civil, solda, pintura, pavimentação e muitos outros para a construção da nova estação de tratamento de água. — Ele calou e respirou fundo olhando duramente a todos aqueles que atentamente escutavam-no. — Guardas! — berrou ele. — Vamos lá, mexam-se! Escolham homens com vigor para o trabalho, fortes, e que não nos deem nenhum problema. Aos que sobrarem... Deem outras funções. Tenham todos um bom dia! — saiu em seguida. 
     Cálibra nos primeiros dias sempre se mostrava o mais educado dos homens, e quase todos sabiam disso. No entanto era preciso engolir a indigestão em seco. Se fosse escolhido ao trabalho na estação de água Sérgio teria trabalho garantido por pelo menos três meses. Valia a pena. Aos poucos cada um era chamado a fazer parte da fila o que não demorou muito para também ser chamado.
     ­— Você... De camisa quadriculada — disse um dos guardas selecionadores. Sérgio o acompanhou e fez o regulamento padrão. Espetou o dedo em um aparelho identificador do governo para assim ser efetivado. Não doía nada. Apenas uma gota de sangue pro governo saber até o que eu caguei ontem. — muito bem, senhor Sérgio Eduardo Augusto de Sousa, 43 anos, viúvo, duas filhas. Aprovado.

     O dia começou, disse. Valeu a pena ter comprado aquele pato.