Capítulos

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Capítulo 5 “Estudem e republicam fazendo filhos”



     Lana pegou um livro, ligou a televisão e se jogou no velho sofá da sala. Fazia muito isso. Detestava ler em total silêncio e nesse horário passava o noticiário que gostava. Fazia as duas coisas juntas. Helena ainda dormia e assim, nesse momento ainda conseguia um pouco de sossego. Esticou as pernas sob o braço do sofá cinza e deitada começou a ler.  Depois de ter terminado alguns de seus afazeres recostou a cabeça para descansar. Lia Acauã, um dos contos paraenses prediletos que foi pedido por sua professora de Literatura Berna Toutou. Ela gostava. Na verdade já o havia lido antes, porém com as obrigatoriedades da disciplina escolar ela o relia. A história de Ana e Vitória a deixava bastante intrigada. O suspense dado por Inglês de Sousa não a permitia parar a leitura. Ela adorava isso.
     Lana aprendeu a ler bastante cedo, com Júlia, sua mãe falecida, antes mesmo de começar a Cartilha. Desde lá não parou. Adquirir livros era algo que almejava fazer, porém quase não o fazia, pois com a criação do Novo Estado de Antonio Ferdinozza os preços subiram bastante, possuir livros custava caro, mas mesmo assim ela apresentava em sua coleção um total 10 livros, o que era muito para alguém de Hensel. Todos já bem velhos, com capas amassadas se desfazendo e páginas amareladas... somente Inglês de Sousa que lia é que era novo. Ganhara na escola juntamente com seus colegas para as aulas de Literatura Paraense. Berna Toutou exigia que todos lessem. Isso não era nenhum problema já que ela terminava o livro antes de todos.
     É uma pena que seja tão curto. É tão intrigante. O que na verdade é Vitória? O que ela esconde? É tudo tão explícto e ao mesmo tempo tão oculto...
     O hino de Belém começou a tocar pelo televisor. Era o momento das notícias do Centro. Como sempre, na abertura do vídeo mostrava-se a vista aérea da cidade. A margem histórica dos prédios muito antigos que ainda se mantinham de pé se sustentando ainda que frágeis pelas caixas de vidro, os antigos e por último: como que mostrando o progresso alcançado pelo novo governo com suas construções gigantescas em vidro, concreto e ferro. Em nenhum momento mostrava nem que fosse ao longe, o antônimo de tudo isso: o Complexo de Ilhas Hensel. O hino encerrava e surgia um homem bastante familiar na imagem distorcida da tela. Antonio Ferdinozza.
     — Queridos amigos, queridas amigas. Estou aqui para mais uma vez prestar contas a você o trabalho que temos realizado em nossa cidade. Faz um pouco de tempo, mas creio que os mais velhos devem lembrar como era a nossa cidade. Era entregue ao abandono. Vivíamos entre as moscas do lixo, sem nenhuma posição diante da nação. Mas graças a Bernardo Antueiras tudo isso mudou. Não foi necessária nenhuma revolução e nenhum derramamento de sangue para que o povo entendesse o que era melhor para si. Muita coisa mudou durante esses vinte e cinco anos de nosso governo. Temos trabalhado bastante para todos. E principalmente para quem mais precisa. A taxa de desempregos tem se...
     Ferdinozza aparecia todas as manhãs no intitulado "Bom Dia Belém" onde ele mesmo era o apresentador, roteirista e chefe, e este último como em tudo o que passava na tevê. Ele aparecia sempre impecável, com seu terno azul-marinho e gravada vermelha e de maneira bastante polida e gentil contava aos telespectadores de toda a cidade as ações feitas na cidade, o que quer dizer no Centro. Alice apreciava até certo ponto assistir o programa, pois a transmissão ela podia se deixar enganar. Crer durante trinta minutos que tudo aquilo era verdade, que ela vivia bem em Hensel e que tudo aquilo que Ferdinozza falava acontecia.
     — Temos trabalhado muito para todos, mas principalmente aos que mais precisam.
     Mas não acontecia. Olhou mais uma vez para o mentiroso que retribuía-lhe o olhar e desligou o aparelho. Lana parou e olhou tudo em sua volta e tomou um grande susto ao ver sua irmã a olhando fixamente.
     — Que susto! Helena! — berrou Lana contraindo a mão ao peito para se acalmar. — Bom dia, Lena. Você quase me mata de susto. — sorriu. — Vamos, vá lavar o rosto e depois venha tomar seu café. Anda, mocinha. Já dormiu o bastante hoje pra nós duas.
     Helena obedeceu. Lana foi prontamente preparar o café da irmã.  Como em todos os dias, leninha sempre tomava uma tigela de mingau aveia. Era seu prato favorito. O problema era que na maioria das vezes tratava-se apenas de água quente e flocos de aveia. Mas não fazia mal, pelo contrário, Helena já estava tão acostumada com a carência que já preferia o mingau sem nada.
     — Helena, aqui. Seu mingau. Tem um pouco de café e torradas também. Vamos rápido que você ainda tem que estudar sua cartilha hoje. Tem estudado?
     A menina deu de ombros.
     — Helena, tem que estudar. Ano que vem você já faz o teste e se você não passar já sabe como papai vai ficar. Você tem que se esforçar. Coma logo isso aí que eu quero você já já estudando.
     Lana era péssima em dar broncas. Helena sabia disso, mas justamente por isso resolver obedecer a irmã. A cartilha era muito importante para qualquer um que quisesse um dia ter a chance de sair de Hensel. Muito mais que isso era o teste.
     Todas as crianças, meninos e meninas, recebem aos quatro anos de idade uma cartilha que nada mais é que um enorme livro que é uma espécie de enciclopedia escolar. Não há escolas em Hensel e por este motivo todas as crianças recebem a Cartilha, como é chamada, para estudarem até os doze anos. Aos doze anos todas elas fazem um teste. Uma prova com inúmeras questões para delimitar quem avançará para prosseguir os estudos. São poucas as crianças que passam. Lana foi uma delas há sete anos. Com sua nota conseguiu continuar e entrar na escola secundarista. Trata-se de um curso de quatro anos intercalado com três de recesso. Seu curso estava para concluir no ano próximo, mas mesmo assim Lana não nutria muitas esperanças de conseguir sair de Hensel. Ficava cada vez mais claro em sua mente que tudo isso era apenas mais uma estratégia para dominar o povo de Hensel com falsas esperanças.
     Helena terminou seu café da manhã, depois de comer algumas torradas e foi até a Cartilha. Era um grande livro vermelho com a capa ilustrando um homem vestido de terno azul-marinho, gravata vermelha e um terno olhar enquanto lia a duas crianças, um menino e uma menina. O homem era Ferdinozza. No topo, tinha a inscrição "Cartilha de Estudos Primários" e logo abaixo, em latim, "Studium in rem publicam faceret filios". Lana jamais soube o que significava aquilo de verdade, mas enganava a todos quando dizia que era um conselho de Ferdinozza às crianças: "Estudem e republicam fazendo filhos". Todos acreditavam.


Nenhum comentário:

Postar um comentário