Lana pegou um livro, ligou a televisão e
se jogou no velho sofá da sala. Fazia muito isso. Detestava ler em total
silêncio e nesse horário passava o noticiário que gostava. Fazia as duas coisas
juntas. Helena ainda dormia e assim, nesse momento ainda conseguia um pouco de
sossego. Esticou as pernas sob o braço do sofá cinza e deitada começou a
ler. Depois de ter terminado alguns de
seus afazeres recostou a cabeça para descansar. Lia Acauã, um dos contos
paraenses prediletos que foi pedido por sua professora de Literatura Berna
Toutou. Ela gostava. Na verdade já o havia lido antes, porém com as
obrigatoriedades da disciplina escolar ela o relia. A história de Ana e Vitória
a deixava bastante intrigada. O suspense dado por Inglês de Sousa não a
permitia parar a leitura. Ela adorava isso.
Lana aprendeu a ler bastante cedo, com
Júlia, sua mãe falecida, antes mesmo de começar a Cartilha. Desde lá não parou.
Adquirir livros era algo que almejava fazer, porém quase não o fazia, pois com
a criação do Novo Estado de Antonio Ferdinozza os preços subiram bastante,
possuir livros custava caro, mas mesmo assim ela apresentava em sua coleção um
total 10 livros, o que era muito para alguém de Hensel. Todos já bem velhos,
com capas amassadas se desfazendo e páginas amareladas... somente Inglês de
Sousa que lia é que era novo. Ganhara na escola juntamente com seus colegas
para as aulas de Literatura Paraense. Berna Toutou exigia que todos lessem.
Isso não era nenhum problema já que ela terminava o livro antes de todos.
É uma pena que seja tão curto. É tão
intrigante. O que na verdade é Vitória? O que ela esconde? É tudo tão explícto
e ao mesmo tempo tão oculto...
O hino de Belém começou a tocar pelo televisor.
Era o momento das notícias do Centro. Como sempre, na abertura do vídeo
mostrava-se a vista aérea da cidade. A margem histórica dos prédios muito
antigos que ainda se mantinham de pé se sustentando ainda que frágeis pelas
caixas de vidro, os antigos e por último: como que mostrando o progresso
alcançado pelo novo governo com suas construções gigantescas em vidro, concreto
e ferro. Em nenhum momento mostrava nem que fosse ao longe, o antônimo de tudo
isso: o Complexo de Ilhas Hensel. O hino encerrava e surgia um homem bastante
familiar na imagem distorcida da tela. Antonio Ferdinozza.
— Queridos amigos, queridas amigas. Estou
aqui para mais uma vez prestar contas a você o trabalho que temos realizado em
nossa cidade. Faz um pouco de tempo, mas creio que os mais velhos devem lembrar
como era a nossa cidade. Era entregue ao abandono. Vivíamos entre as moscas do
lixo, sem nenhuma posição diante da nação. Mas graças a Bernardo Antueiras tudo
isso mudou. Não foi necessária nenhuma revolução e nenhum derramamento de
sangue para que o povo entendesse o que era melhor para si. Muita coisa mudou
durante esses vinte e cinco anos de nosso governo. Temos trabalhado bastante
para todos. E principalmente para quem mais precisa. A taxa de desempregos tem
se...
Ferdinozza aparecia todas as manhãs no
intitulado "Bom Dia Belém" onde ele mesmo era o apresentador,
roteirista e chefe, e este último como em tudo o que passava na tevê. Ele
aparecia sempre impecável, com seu terno azul-marinho e gravada vermelha e de
maneira bastante polida e gentil contava aos telespectadores de toda a cidade
as ações feitas na cidade, o que quer dizer no Centro. Alice apreciava até
certo ponto assistir o programa, pois a transmissão ela podia se deixar
enganar. Crer durante trinta minutos que tudo aquilo era verdade, que ela vivia
bem em Hensel e que tudo aquilo que Ferdinozza falava acontecia.
— Temos trabalhado muito para todos, mas
principalmente aos que mais precisam.
Mas não acontecia. Olhou mais uma vez para
o mentiroso que retribuía-lhe o olhar e desligou o aparelho. Lana parou e olhou
tudo em sua volta e tomou um grande susto ao ver sua irmã a olhando fixamente.
— Que susto! Helena! — berrou Lana
contraindo a mão ao peito para se acalmar. — Bom dia, Lena. Você quase me mata
de susto. — sorriu. — Vamos, vá lavar o rosto e depois venha tomar seu café.
Anda, mocinha. Já dormiu o bastante hoje pra nós duas.
Helena obedeceu. Lana foi prontamente
preparar o café da irmã. Como em todos
os dias, leninha sempre tomava uma tigela de mingau aveia. Era seu prato
favorito. O problema era que na maioria das vezes tratava-se apenas de água
quente e flocos de aveia. Mas não fazia mal, pelo contrário, Helena já estava
tão acostumada com a carência que já preferia o mingau sem nada.
— Helena, aqui. Seu mingau. Tem um pouco
de café e torradas também. Vamos rápido que você ainda tem que estudar sua
cartilha hoje. Tem estudado?
A menina deu de ombros.
— Helena, tem que estudar. Ano que vem
você já faz o teste e se você não passar já sabe como papai vai ficar. Você tem
que se esforçar. Coma logo isso aí que eu quero você já já estudando.
Lana era péssima em dar broncas. Helena
sabia disso, mas justamente por isso resolver obedecer a irmã. A cartilha era
muito importante para qualquer um que quisesse um dia ter a chance de sair de
Hensel. Muito mais que isso era o teste.
Todas as crianças, meninos e meninas,
recebem aos quatro anos de idade uma cartilha que nada mais é que um enorme
livro que é uma espécie de enciclopedia escolar. Não há escolas em Hensel e por
este motivo todas as crianças recebem a Cartilha, como é chamada, para
estudarem até os doze anos. Aos doze anos todas elas fazem um teste. Uma prova
com inúmeras questões para delimitar quem avançará para prosseguir os estudos.
São poucas as crianças que passam. Lana foi uma delas há sete anos. Com sua
nota conseguiu continuar e entrar na escola secundarista. Trata-se de um curso
de quatro anos intercalado com três de recesso. Seu curso estava para concluir
no ano próximo, mas mesmo assim Lana não nutria muitas esperanças de conseguir
sair de Hensel. Ficava cada vez mais claro em sua mente que tudo isso era
apenas mais uma estratégia para dominar o povo de Hensel com falsas esperanças.
Helena terminou seu café da manhã, depois
de comer algumas torradas e foi até a Cartilha. Era um grande livro vermelho
com a capa ilustrando um homem vestido de terno azul-marinho, gravata vermelha
e um terno olhar enquanto lia a duas crianças, um menino e uma menina. O homem
era Ferdinozza. No topo, tinha a inscrição "Cartilha de Estudos
Primários" e logo abaixo, em latim, "Studium in rem publicam faceret
filios". Lana jamais soube o que significava aquilo de verdade, mas
enganava a todos quando dizia que era um conselho de Ferdinozza às crianças:
"Estudem e republicam fazendo filhos". Todos acreditavam.
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