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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Capítulo 6 “A Casa dos Albuquerque”



     Após as enchentes que deixaram parte da cidade destruída há alguns anos, os casarios históricos e habitações contemporâneas que ficavam à margem da Baía do Guajará foram inundados, o governo de Antonio Ferdinozza teve para si duas estratégias. Inicialmente, decidiram intensificar os trabalhos de revitalização e restauração de toda a parte histórica da cidade, isolando os inúmeros prédios com grandes cubos de vidro e metal, as quais protegiam sobretudo suas bases combatendo assim futuros transtornos, impedindo assim qualquer utilização desses. O que não era difícil de imaginar. Ferdinozza desde o início de sua intendência tinha forte apelo para o apagamento e esquecimento do que chamavam “os grandes documentos de todo o mal que nossa idolatrada cidade sofrera durante os seus mais de quatro séculos de existência”. Belém funcionava principalmente em seu domínio oeste, com a segunda estratégia criada pelo estimado prefeito. A cidade estendia-se, sobretudo, ao Anexo Belém-Cabana ou AlphaBetaCondomy e mais conhecido como AlBeCo.
     O AlBeCo era um gigantesco condomínio inaugurado cinco anos após a grande enchente de março. Uma enorme estrutura residencial-comercial que visava abrigar a alta sociedade belenense, assim como todo o maquinário político da cidade-estado. O Anexo se constituía de uma gigantesca área circular, tendo um raio de vinte quilômetros repartidos em áreas menores por vinte e cinco ruas que saíam da extremidade de AlBeCo e seguiam até o centro do grande circulo, em um enorme parque circular. Cada área menor era chamada de talha e dividia-se de A a Z. As talhas seguiam até os altos muros de concreto por dois caminhos: à entrada do condomínio, ao leste, que pela estrada velha chegava a parte antiga da cidade que nesse tempo estava totalmente abandonada e suja, inutilizada pela maior parte da população, com um forte cheiro característico de sujeira e com inúmeras pragas circulando por todo o lugar – a morada dos infelizes – e a oeste, pela estrada pavimentada fechada por muros e sentinelas que se direcionava ao rio que ligava o Complexo Hensel à cidade.
     Naquele lugar em meio a ruas apinhadas de gente viam-se homens e mulheres extravagantes. Com suas roupas caras de Anellisse Bourton e sapatos de Figarra tentavam demonstrar uma importância em suas vidas que certamente não havia. Partindo do Parque Central do anexo AlBeCo, com sua vegetação admirável e crianças brincando à beira do lago, seguia-se os grandes prédios públicos – a Intendência, a Imprensa, o Tribunal de Justiça, o Batalhão do Exército, o Corpo da Guarda – assim como os hospitais, escolas, restaurantes, cinemas, lojas e tudo o que movimentasse as bolsas e carteiras alteradas da cidade. Bem afastado do centro apenas é que se localizavam suas residências tradicionais, que seguindo as divisões de talhas pertenciam aos homens mais ricos do anexo. Homens como Horácio Flamingo, Lúcio Mattos, a própria família Ferdinozza, os Bourtons e também os Albuquerque.  
    Eram todas belas casas, com seus telhados alaranjados, jardins sempre arrumados, janelas e portas sempre fechadas e com uma ausência humana característica de residências abastadas, no entanto, nenhuma delas chegava aos pés do magnífico prédio da talha L número 4. A mansão dos Albuquerque era de longe a casa mais bela de todo Albeco e também a mais comentada por causa dos seus ilustres moradores. Miranda Albuquerque, artista plástica da capital, professora da Academia Artística e esposa de Cálibra Albuquerque, 1° capitão do comando do exército municipal. Os dois, destaques cotidianos nas revistas, apareciam constantemente em reportagens dos cadernos de cultura e política do Jornal Belém e com isso se faziam sempre presentes nas mais famosas e requisitadas festas que aconteciam pela cidade. Da mesma forma, as comemorações na moradia Albuquerquiana eram conhecidíssimas e sempre resultavam em reportagens nos dias seguintes oscilando sempre entre as páginas sociais, as de fofocas e cada vez mais frequente até mesmo nas policiais. Como na festa de despedida da filha do casal, Lina “O” ‘Burque, que partia à Inglaterra para a inauguração de sua coleção de moda pelas mãos dos Bourtons quando um dos diretores da Lemos Televisão bêbado começou a xingar e brigar com um dos homens da CCB – Corporação Cinematográfica Belenense. Heraldo Goés fez questão de publicar na primeira página do Jornal Belém sob a manchete “LEMOS NÃO AGUENTANDO REJEIÇÃO ENFRENTA CCB EM FESTA DOS ALBUQUERQUE”. Goés só queria realmente provocar o canal de televisão, após sucessivos ataques mostrando estatísticas que mostravam maior receptividade do canal somente no Complexo Hensel e cria que isso pusesse um xeque-mate em tudo, já que a CCB estava em seu auge de popularidade, com produções financiadas pelo governo e contando com participações de estrelas de Hollywood falidas financeiramente, como Ellen Miranda, como no estupendo sucesso de Amor de Marcha.
     A casa era palco de grandes situações não muito agradáveis também, como seus moradores. Viviam entre si como esfinges escondendo-se por trás de fardamentos, telas e roteiros rabiscados à lápis, como fazia a própria Miranda naquele manhã após a revelação de um novo trabalho. As horas que passava em seu ateliê viravam a noite, principalmente quando Cálibra dormia no comando militar. Depois de uma noite em claro, uma porção de papéis rabiscados pelo chão e o computador online em sua rede social, ela finalmente completou a ideia que tinha em sua cabeça há tantos dias. Epifania. Miranda já tinha se dado conta que amanhecera, pois a luz que entrava pelas janelas do quarto-ateliê iluminavam a tudo, tornando as brancas paredes do espaço paulatinamente amareladas pela luz matinal. Apanhou o celular que estava sob uma pilha de papéis e assustou-se.
     — Sete horas? — perguntou incrédula e jogou-se no computador como que para confirmar a informação. — Sete horas!
     Quando acordava Miranda apresentava o costume de massagear com as mãos todo o cabelo fazendo círculos ao redor da cabeça desgrenhando todo seu corte curto. Levantou-se da cadeira e espreguiçou-se olhando para tudo em volta. Sabia que aquilo que pensara durante toda a noite era desafiador demais para ela. Seria ele como uma tapa de desaprovação de tudo aquilo que detestava, porém, se teve a oportunidade de fazê-lo o faria. Não queria só mais um apelo estético. Agora desejava ser um sujeito de sua própria criação. Aos poucos se sentia como todos aqueles mestres da arte do passado que tanto se acostumara a ver nos documentários comprados da BBC ou Discovery que eram constantemente reprisados na Lemos Televisão. Nesse momento quem seria Miranda? Um Caravaggio ou um Rembrant? Não sabia ao certo. Tudo o queria naquele momento era coragem para expor tudo aquilo que escondia há tanto tempo. Tudo aquilo que a chocava e...
     Uma batida na porta.
     — Bom dia, senhora Miranda. Já passam das sete e a qualquer momento o senhor Cálibra estará chegando. Não seria m...
     — O.K. Matilde. Já estou indo.
     ... E a fez ser quem era hoje, infelizmente.
     Miranda espreguiçou-se novamente, desligou o computador e certificou-se de deixar sua bagunça um pouco mais arrumada. Em seguida apanhou seu hobby e saiu de seu ateliê. Sabendo que a qualquer momento seu marido chegaria achou melhor estar apresentável para recebê-lo. Era sempre assim.
    Entrou em seu quarto e sem muita paciência despiu-se completamente enquanto entrava no banheiro. Olhou-se por um tempo no espelho acima da pia e viu que sua cara estava destruída, como diria a filha que estava viajando. Sorriu. Sentou-se no vaso sanitário e urinou. Levantou-se e novamente pôs-se à pia e aos poucos desfazia a “cara de ontem” por algo um pouco mais agradável. Miranda que tinha a pele pálida passava uma cor nas bochechas e algo nos lábios para dar brilho. Seu cabelo vermelho desarrumado aos poucos modelava-se ao contorno do crânio enquanto a leves e rápidas passadas penteava-se. Estava apresentável agora, pensou. Menos, é claro pelo fato de estar nua. Olhou-se um pouco pelo espelho e por um instante imaginou-se numa tela do jeito que estava, tal qual a Vênus de Bouguereau só que mais tropical. Achou-se um máximo.
    Apanhou um vestido creme e vestiu-o. De mangas largas e um sútil decote mostrava delicadamente os seios dando a ela uma sensualidade sadia que revigorava seu dia. Desceu. O café-da-manhã costumeiramente a esperava na sala de refeições. Matilde, sua governanta, esperava-a ao lado da mesa ornamentada. Ao chegar acomodou-a na mesa e mandou os demais empregados a servirem.
     — Está resplandecente hoje, senhora Miranda! — disse a governanta de maneira bastante intrusiva, o que era comum à ela, e que  se tratava apenas de um pretexto para assim saber o que sua patroa fazia durante horas naquele ateliê.
     — Que bom! Obrigada, Matilde! Isso porque você não me viu logo cedo. Estou exausta.
     Bingo. A filha-da-mãe conseguiu.
     — Não seria bom uma xícara de chá com um pouco de mel para lhe fortalecer? Já lhe disse que chá tem mais cafeína q...
     — Que o café? Já, já. Já me disse isso várias vezes! E eu também já disse que detesto chás, não existe coisa pior... Vou querer só um suco e uma tapioquinha.  Pode ser, Matilde?
     Miranda sorriu. Matilde também. Uma já tinha se acostumado com a loucura da outra.
     —Aqui está a tapioquinha. A senhora vai querer suco de que? Temos de cupuaçu e de goiaba.
     — Matilde, querida, você já me viu alguma vez tomar suco de cupuaçu? Não? Pois bem. Mas toda vez trata-se da mesma pergunta todos os dias. Cupuaçu é pra Cálibra. Estou começando a pensar que já está na hora de você se aposentar, tilde.
     Por um momento as duas ficaram em silêncio e se entreolharam. Aquilo pareceu eterno para Matilde até que Miranda riu novamente.
     — Foi uma brincadeira, minha querida. Agora traga, por favor, meu suco de goiaba. E não me ofereça mais cupuaçu nesta vida.  Detesto esta fruta, só sentir seu cheiro me dá náuseas, creio que seja um tipo de...
    Surge uma pessoa magra, de estatura baixa entrando onde as duas estavam interrompendo.
     — Não, não é um tipo de alergia! Tudo começou e você se lembra bem há mais de 30 anos logo que chegamos em Belém. Bom dia, meninas!
     A mulher já velha, porém bastante arrumada. Com o cabelo louro armado, típico das estrelas da era de ouro de Hollywood sentou-se e servia a si mesma sem muita preocupação enquanto continuava a conversa.
     — Acredita Matilde que desde aquele episódio com a infeliz da Sarah sei-lá-o-que Miranda rejeita cupuaçu?
     Matilde balançou a cabeça confirmando.
     — É claro que sabe, mas se esquece, senão não ficaria todos os dias oferecendo a minha filha aquilo que ela não gosta. Pois bem: Quando tudo aquilo aconteceu, quando eu percebi que aquela garota estava grávida e cumpri meu dever como boa cidadã que sou ligando para a polícia, Miranda percebeu que tudo aquilo tinha sido gerado por causa de um copo de suco de cupuaçu. — A mulher apanhou uma jarra de metal de despejou um líquido amarelo claro sobre um copo. Acenou com a cabeça olhando para a filha sorrindo — Apesar de criança sempre foi inteligente. Puxou a mim, menos em Matemática para o meu desgosto. Creio que por isso também quis cursar arte, não é meu bem? — sorriu sem graça junto a Miranda. — Ficou traumatizada com isso também?
     — Quem sabe, não é Ellen Miranda? — respondeu Miranda.
     — Parafraseando Bollãnos, — começou Ellen enquanto segurava seu copo de suco de cupuaçu e guiando em direção a boca e em seguida bebendo-o. — diria que só os culpados respondem uma pergunta com outra pergunta. — finalizou.
     O que ela está pensando? disse a si mesma Miranda.
     — Falando em culpados... onde está seu marido?
     — Trabalhando como sempre. — respondeu Miranda sorrindo mentalmente. Vá ao inferno.
     — Como sempre? — sorriu. — Essa é muito boa, não é Matilde? — Matilde continuou sem expressar nada ao lado das duas como a mulher de Ló ao olhar as cidades sendo destruídas. — Só espero que não faça mais nenhuma besteira nem que chegue tarde demais. Hoje temos uma entrevista com uma tal de Rochelle Nanquim às onze.
     — Rochelle Nanquim? Quem é?
     — Deve ser alguma estagiáriazinha de dezesseis anos magricela do Jornal Belém. Nunca ouvi falar... É com essas e outras que vemos que estamos decaindo. Uma estagiária!
     Miranda preferiu não dar prosseguimento na conversa. Rochelle Nanquim! Também nunca ouvira falar. Não tinha problema nenhum com estagiários, pelo contrário da mãe que tinha se acostumado na juventude a estar a cada noite em um talkshow diferente e agora na maturidade – que nada mais é um nome menos vulgar que velhice para Ellen – ser cada vez menos constante nas mídias. Nesse momento o que a intrigava mesmo era o nome. Nanquim? Miranda não aguentou e deu uma risada.
     — Verdadeiramente, não prestas Ellen!
     A mulher olhou para Miranda. Pôs um cigarro na boa e acendeu-o.
     — Muito mais você sendo minha filha!
     As duas caíram na gargalhada. Matilde acompanhou tudo em silêncio. “Essas duas”, pensou.
           
    


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