Após as
enchentes que deixaram parte da cidade destruída há alguns anos, os casarios
históricos e habitações contemporâneas que ficavam à margem da Baía do Guajará
foram inundados, o governo de Antonio Ferdinozza teve para si duas estratégias.
Inicialmente, decidiram intensificar os trabalhos de revitalização e
restauração de toda a parte histórica da cidade, isolando os inúmeros prédios
com grandes cubos de vidro e metal, as quais protegiam sobretudo suas bases
combatendo assim futuros transtornos, impedindo assim qualquer utilização desses.
O que não era difícil de imaginar. Ferdinozza desde o início de sua intendência
tinha forte apelo para o apagamento e esquecimento do que chamavam “os grandes
documentos de todo o mal que nossa idolatrada cidade sofrera durante os seus
mais de quatro séculos de existência”. Belém funcionava principalmente em seu
domínio oeste, com a segunda estratégia criada pelo estimado prefeito. A cidade
estendia-se, sobretudo, ao Anexo Belém-Cabana ou AlphaBetaCondomy e mais
conhecido como AlBeCo.
O AlBeCo
era um gigantesco condomínio inaugurado cinco anos após a grande enchente de
março. Uma enorme estrutura residencial-comercial que visava abrigar a alta
sociedade belenense, assim como todo o maquinário político da cidade-estado. O
Anexo se constituía de uma gigantesca área circular, tendo um raio de vinte
quilômetros repartidos em áreas menores por vinte e cinco ruas que saíam da
extremidade de AlBeCo e seguiam até o centro do grande circulo, em um enorme
parque circular. Cada área menor era chamada de talha e dividia-se de A a Z. As
talhas seguiam até os altos muros de concreto por dois caminhos: à entrada do
condomínio, ao leste, que pela estrada velha chegava a parte antiga da cidade
que nesse tempo estava totalmente abandonada e suja, inutilizada pela maior
parte da população, com um forte cheiro característico de sujeira e com
inúmeras pragas circulando por todo o lugar – a morada dos infelizes – e a
oeste, pela estrada pavimentada fechada por muros e sentinelas que se
direcionava ao rio que ligava o Complexo Hensel à cidade.
Naquele
lugar em meio a ruas apinhadas de gente viam-se homens e mulheres
extravagantes. Com suas roupas caras de Anellisse Bourton e sapatos de Figarra
tentavam demonstrar uma importância em suas vidas que certamente não havia.
Partindo do Parque Central do anexo AlBeCo, com sua vegetação admirável e
crianças brincando à beira do lago, seguia-se os grandes prédios públicos – a
Intendência, a Imprensa, o Tribunal de Justiça, o Batalhão do Exército, o Corpo
da Guarda – assim como os hospitais, escolas, restaurantes, cinemas, lojas e
tudo o que movimentasse as bolsas e carteiras alteradas da cidade. Bem afastado
do centro apenas é que se localizavam suas residências tradicionais, que
seguindo as divisões de talhas pertenciam aos homens mais ricos do anexo.
Homens como Horácio Flamingo, Lúcio Mattos, a própria família Ferdinozza, os
Bourtons e também os Albuquerque.
Eram
todas belas casas, com seus telhados alaranjados, jardins sempre arrumados,
janelas e portas sempre fechadas e com uma ausência humana característica de
residências abastadas, no entanto, nenhuma delas chegava aos pés do magnífico
prédio da talha L número 4. A mansão dos Albuquerque era de longe a casa mais
bela de todo Albeco e também a mais comentada por causa dos seus ilustres moradores.
Miranda Albuquerque, artista plástica da capital, professora da Academia
Artística e esposa de Cálibra Albuquerque, 1° capitão do comando do exército
municipal. Os dois, destaques cotidianos nas revistas, apareciam constantemente
em reportagens dos cadernos de cultura e política do Jornal Belém e com isso se
faziam sempre presentes nas mais famosas e requisitadas festas que aconteciam
pela cidade. Da mesma forma, as comemorações na moradia Albuquerquiana eram
conhecidíssimas e sempre resultavam em reportagens nos dias seguintes oscilando
sempre entre as páginas sociais, as de fofocas e cada vez mais frequente até
mesmo nas policiais. Como na festa de despedida da filha do casal, Lina “O”
‘Burque, que partia à Inglaterra para a inauguração de sua coleção de moda
pelas mãos dos Bourtons quando um dos diretores da Lemos Televisão bêbado
começou a xingar e brigar com um dos homens da CCB – Corporação Cinematográfica
Belenense. Heraldo Goés fez questão de publicar na primeira página do Jornal Belém sob a manchete “LEMOS NÃO
AGUENTANDO REJEIÇÃO ENFRENTA CCB EM FESTA DOS ALBUQUERQUE”. Goés só queria
realmente provocar o canal de televisão, após sucessivos ataques mostrando
estatísticas que mostravam maior receptividade do canal somente no Complexo
Hensel e cria que isso pusesse um xeque-mate em tudo, já que a CCB estava em
seu auge de popularidade, com produções financiadas pelo governo e contando com
participações de estrelas de Hollywood falidas financeiramente, como Ellen
Miranda, como no estupendo sucesso de Amor
de Marcha.
A casa
era palco de grandes situações não muito agradáveis também, como seus
moradores. Viviam entre si como esfinges escondendo-se por trás de fardamentos,
telas e roteiros rabiscados à lápis, como fazia a própria Miranda naquele manhã
após a revelação de um novo trabalho. As horas que passava em seu ateliê
viravam a noite, principalmente quando Cálibra dormia no comando militar.
Depois de uma noite em claro, uma porção de papéis rabiscados pelo chão e o
computador online em sua rede social, ela finalmente completou a ideia que tinha
em sua cabeça há tantos dias. Epifania. Miranda já tinha se dado conta que
amanhecera, pois a luz que entrava pelas janelas do quarto-ateliê iluminavam a
tudo, tornando as brancas paredes do espaço paulatinamente amareladas pela luz
matinal. Apanhou o celular que estava sob uma pilha de papéis e assustou-se.
— Sete
horas? — perguntou incrédula e jogou-se no computador como que para confirmar a
informação. — Sete horas!
Quando
acordava Miranda apresentava o costume de massagear com as mãos todo o cabelo
fazendo círculos ao redor da cabeça desgrenhando todo seu corte curto.
Levantou-se da cadeira e espreguiçou-se olhando para tudo em volta. Sabia que
aquilo que pensara durante toda a noite era desafiador demais para ela. Seria
ele como uma tapa de desaprovação de tudo aquilo que detestava, porém, se teve
a oportunidade de fazê-lo o faria. Não queria só mais um apelo estético. Agora desejava
ser um sujeito de sua própria criação. Aos poucos se sentia como todos aqueles
mestres da arte do passado que tanto se acostumara a ver nos documentários
comprados da BBC ou Discovery que eram constantemente reprisados na Lemos
Televisão. Nesse momento quem seria Miranda? Um Caravaggio ou um Rembrant? Não
sabia ao certo. Tudo o queria naquele momento era coragem para expor tudo aquilo
que escondia há tanto tempo. Tudo aquilo que a chocava e...
Uma
batida na porta.
— Bom
dia, senhora Miranda. Já passam das sete e a qualquer momento o senhor Cálibra
estará chegando. Não seria m...
— O.K.
Matilde. Já estou indo.
... E a
fez ser quem era hoje, infelizmente.
Miranda
espreguiçou-se novamente, desligou o computador e certificou-se de deixar sua
bagunça um pouco mais arrumada. Em seguida apanhou seu hobby e saiu de seu
ateliê. Sabendo que a qualquer momento seu marido chegaria achou melhor estar
apresentável para recebê-lo. Era sempre assim.
Entrou em
seu quarto e sem muita paciência despiu-se completamente enquanto entrava no
banheiro. Olhou-se por um tempo no espelho acima da pia e viu que sua cara
estava destruída, como diria a filha que estava viajando. Sorriu. Sentou-se no
vaso sanitário e urinou. Levantou-se e novamente pôs-se à pia e aos poucos
desfazia a “cara de ontem” por algo um pouco mais agradável. Miranda que tinha
a pele pálida passava uma cor nas bochechas e algo nos lábios para dar brilho.
Seu cabelo vermelho desarrumado aos poucos modelava-se ao contorno do crânio
enquanto a leves e rápidas passadas penteava-se. Estava apresentável agora,
pensou. Menos, é claro pelo fato de estar nua. Olhou-se um pouco pelo espelho e
por um instante imaginou-se numa tela do jeito que estava, tal qual a Vênus de Bouguereau só que mais tropical.
Achou-se um máximo.
Apanhou
um vestido creme e vestiu-o. De mangas largas e um sútil decote mostrava
delicadamente os seios dando a ela uma sensualidade sadia que revigorava seu
dia. Desceu. O café-da-manhã costumeiramente a esperava na sala de refeições.
Matilde, sua governanta, esperava-a ao lado da mesa ornamentada. Ao chegar
acomodou-a na mesa e mandou os demais empregados a servirem.
— Está
resplandecente hoje, senhora Miranda! — disse a governanta de maneira bastante
intrusiva, o que era comum à ela, e que
se tratava apenas de um pretexto para assim saber o que sua patroa fazia
durante horas naquele ateliê.
— Que bom! Obrigada, Matilde! Isso porque
você não me viu logo cedo. Estou exausta.
Bingo. A filha-da-mãe conseguiu.
— Não
seria bom uma xícara de chá com um pouco de mel para lhe fortalecer? Já lhe
disse que chá tem mais cafeína q...
— Que o
café? Já, já. Já me disse isso várias vezes! E eu também já disse que detesto
chás, não existe coisa pior... Vou querer só um suco e uma tapioquinha. Pode ser, Matilde?
Miranda
sorriu. Matilde também. Uma já tinha se acostumado com a loucura da outra.
—Aqui
está a tapioquinha. A senhora vai querer suco de que? Temos de cupuaçu e de
goiaba.
—
Matilde, querida, você já me viu alguma vez tomar suco de cupuaçu? Não? Pois
bem. Mas toda vez trata-se da mesma pergunta todos os dias. Cupuaçu é pra
Cálibra. Estou começando a pensar que já está na hora de você se aposentar,
tilde.
Por um
momento as duas ficaram em silêncio e se entreolharam. Aquilo pareceu eterno
para Matilde até que Miranda riu novamente.
— Foi
uma brincadeira, minha querida. Agora traga, por favor, meu suco de goiaba. E
não me ofereça mais cupuaçu nesta vida.
Detesto esta fruta, só sentir seu cheiro me dá náuseas, creio que seja
um tipo de...
Surge uma
pessoa magra, de estatura baixa entrando onde as duas estavam interrompendo.
— Não,
não é um tipo de alergia! Tudo começou e você se lembra bem há mais de 30 anos
logo que chegamos em Belém. Bom dia, meninas!
A mulher
já velha, porém bastante arrumada. Com o cabelo louro armado, típico das
estrelas da era de ouro de Hollywood sentou-se e servia a si mesma sem muita
preocupação enquanto continuava a conversa.
—
Acredita Matilde que desde aquele episódio com a infeliz da Sarah sei-lá-o-que
Miranda rejeita cupuaçu?
Matilde
balançou a cabeça confirmando.
— É
claro que sabe, mas se esquece, senão não ficaria todos os dias oferecendo a
minha filha aquilo que ela não gosta. Pois bem: Quando tudo aquilo aconteceu,
quando eu percebi que aquela garota estava grávida e cumpri meu dever como boa
cidadã que sou ligando para a polícia, Miranda percebeu que tudo aquilo tinha
sido gerado por causa de um copo de suco de cupuaçu. — A mulher apanhou uma
jarra de metal de despejou um líquido amarelo claro sobre um copo. Acenou com a
cabeça olhando para a filha sorrindo — Apesar de criança sempre foi
inteligente. Puxou a mim, menos em Matemática para o meu desgosto. Creio que
por isso também quis cursar arte, não é meu bem? — sorriu sem graça junto a
Miranda. — Ficou traumatizada com isso também?
— Quem
sabe, não é Ellen Miranda? — respondeu Miranda.
—
Parafraseando Bollãnos, — começou Ellen enquanto segurava seu copo de suco de
cupuaçu e guiando em direção a boca e em seguida bebendo-o. — diria que só os
culpados respondem uma pergunta com outra pergunta. — finalizou.
O que
ela está pensando? disse a si mesma Miranda.
—
Falando em culpados... onde está seu marido?
—
Trabalhando como sempre. — respondeu Miranda sorrindo mentalmente. Vá ao
inferno.
— Como
sempre? — sorriu. — Essa é muito boa, não é Matilde? — Matilde continuou sem
expressar nada ao lado das duas como a mulher de Ló ao olhar as cidades sendo
destruídas. — Só espero que não faça mais nenhuma besteira nem que chegue tarde
demais. Hoje temos uma entrevista com uma tal de Rochelle Nanquim às onze.
—
Rochelle Nanquim? Quem é?
— Deve
ser alguma estagiáriazinha de dezesseis anos magricela do Jornal Belém. Nunca
ouvi falar... É com essas e outras que vemos que estamos decaindo. Uma
estagiária!
Miranda
preferiu não dar prosseguimento na conversa. Rochelle Nanquim! Também nunca
ouvira falar. Não tinha problema nenhum com estagiários, pelo contrário da mãe
que tinha se acostumado na juventude a estar a cada noite em um talkshow
diferente e agora na maturidade – que nada mais é um nome menos vulgar que
velhice para Ellen – ser cada vez menos constante nas mídias. Nesse momento o
que a intrigava mesmo era o nome. Nanquim? Miranda não aguentou e deu uma
risada.
—
Verdadeiramente, não prestas Ellen!
A mulher
olhou para Miranda. Pôs um cigarro na boa e acendeu-o.
— Muito
mais você sendo minha filha!
As duas
caíram na gargalhada. Matilde acompanhou tudo em silêncio. “Essas duas”,
pensou.
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