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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Capítulo 3 “A suave face rubra de Alice”




     Alice estava desolada, e pior: sozinha naquele quarto imenso. Não sabia como lidar com o fato ocorrido. Apesar de já ter ouvido pela boca da própria mãe diversos casos semelhantes. Minha mãe! Ainda mais para ela. Já estava permissiva à sua vida pública junto à mãe, porém nesse caso seria algo terrível. Um caso de morte. Talvez até mesmo duas mortes! Como fui estúpida!
     Ela se culpava. Culpava a Hugo. E chorando percebia que era tudo uma grande mentira: não havia culpados. O pior era que estava só nisso tudo, não podia confiar em ninguém. As pessoas são sempre muito fiéis a Ferdinozza. Seu choro aumentou.
     “Você precisa se controlar. Todos vão acabar percebendo assim.”
     Demorou, mas aos poucos ela mesma se consolava. O efeito era mínimo, mas já era alguma coisa. E o rosto dele não saía da sua mente. Pegou o celular que estava no criado-mudo. Os dedos deslizavam por diversos contatos da agenda... Anne... Célio... Dora... Hugo. O rosto dele aparecia também ali. Sorrindo ao seu encontro. Desistiu. Deveriam conversar pessoalmente. Nesse momento seu corpo ganhou um enorme peso e só pôde deixar a gravidade tomar conta do resto. Jogou-se na cama. Dormiu.

     Alice estava no terceiro ano do curso de Artes no Instituto de Artes de Belém. Isso foi um problema para ela desde o início. Sua família que rondava pela a elite da cidade era bastante conceituada para ter uma filha estudante de artes. Poderia ser outra coisa? Diziam eles. Literatura ao menos, vire uma escritora. A jovem relutava bastante aos caprichos dados, sobretudo ao pai, mas no fim optou por estudar. Era radiante. Tinha plena certeza que era isso que queria, não tinha sombra de dúvidas.
     Não consigo entender papai e mamãe. Porque esse assombro tão grande a minha vontade de cursar artes? Pelo menos mamãe deveria entender. Não vejo nenhum hensel ao menos andando em volta do colégio. Todos os estudantes são de nossa classe social. São filhos dos mais variados homens e mulheres mais ricos da cidade. Não há como negar. Hoje mesmo, em nosso primeiro dia de aula vi entrar em uma das salas uma jovem que com certeza era filha de alguma atriz de teatro. Lembro porque quando fui ao da Paz vi uma moça muito parecida com ela enquanto voltava pra casa. Não há nada de errado comigo ou com a Arte... Muito menos a Arte...Mas foi muito bom. Nosso primeiro dia foi bastante instrutivo. Conheci duas jovens que parecem ser bem decentes, creio que mamãe não fará nenhum drama se convidá-las para ir à nossa casa algum dia. Nossa orientadora é ninguém menos que Silvana Barros, aquela artista que contei certa vez sobre o grande painel de um jardim holográfico. Ela é muito mais agradável pessoalmente. São todos tão interessantes. Fico pensando sabe... Será que vou ser como eles daqui há um tempo?           
     A resposta era um pouco confusa, pois Alice já era alguém desde seu nascimento. Mas no seu íntimo ela queria algo mais. O curso seguiu a passos marcados e ela mergulhava bastante no mundo artístico de Belém. Visitava muitos museus, exposições, galerias e também teve de lia bastante coisa. Conheceu muita gente nova, gente diferente, pessoas de todos os tipos. Ela os achava estranhos, mas gostava de estar com eles. Suas amigas também eram bem diferentes dela. Ela meio que gostava disso.
     Certa vez foram visitar uma exposição. Doze de junho. Como sempre acontecia foram de carro Diana, Anne e Alice. Diana era uma jovem alta de pele morena, cabelos ondulados coloridos e olhos bem marcados pela quantidade excessiva de maquiagem prateada que usava, era a comediante do trio. Anne também era bastante diferente daquilo que Alice conhecia anteriormente. Tinha os cabelos cor de cenoura, lisos, na altura da cintura e usava roupas bem coloridas. Era a mais inteligente das três, ou melhor, a mais experiente. Alice era a mais calada. Tinha estatura mediana, cabelos loiros, claros, olhos verdes, e expressava em todas certa imagem de pureza em que nelas não havia, por isso, trocistas, chamavam-na de Aurora.
     
     Diana estava demais entusiasmada para que fosse com elas naquela exposição. Isso era notável, já que não se deixava olhar nenhuma obra sequer, caminhando sempre a nossa frente e, reclamando, nos mandando acompanha-la. Queria me apresentar a alguém... Hugo. Foi nesse dia em que o conheci. Enquanto visitávamos a exposição de Guilhermo Torino ela correu em sua direção, puxou-o pelo braço e sem tanta graça disse: “Hugo, quero te apresentar a minha amiga Alice.” Não era a primeira vez que tanto Diana ou mesmo Anne me aprontavam algo assim... Meu rosto logo ficava corado por não saber o que fazer, mas antes que isso pudesse acontecer o recém-conhecido apenas estendeu a mão e me cumprimentou. Saudou também a Anne, penso que já eram conhecidos. Ele nos chamou e resolveu nos apresentar a exposição. Ao contrário do que normalmente acontecia ele realmente era alguém que parecia gostar de arte. Não era um daqueles que estavam sempre despenteados e com um cheiro de álcool a metros de distância. Bastou nos afastarmos um pouco dele e Anne me perguntou: “E aí, gostou dele?” Eu ri. Lembro-me como se fosse hoje. Depois desse dia eu e Hugo ficávamos cada vez mais juntos. A companhia dele me agradava e creio que também a minha a ele.
     Não demorou muito para começarem a pensar que estávamos namorando. Não digo que era mentira, pois ainda que subliminarmente já nos amávamos. Os dias em que saíamos mais cedo ou até após as aulas, eram sempre momentos livres em que desperdiçávamos juntos. Hugo trazia a mim algo diferente que ainda não havia experimentado. Ele demonstrava-me bastante segurança em suas palavras. Como eu, Hugo tinha inúmeras queixas ao governo de Ferdinozza. Sua beleza emoldurada pela juventude e sua retórica encantavam-me aos poucos. Hugo personificava naquele momento tudo aquilo que eu buscava em alguém. Era perfeito.
     — Não somos nós, Alice, é isso tudo. — disse ele certa vez.— Querem nos fazer acreditar que isso aqui é tudo. Eles estão construindo muros e mais muros, cercas e mais cercas para nos isolar do restante. Renato disse-me que estão construindo também um campo de trabalho nas ilhas. Isso é errado. — completava ele como um revolucionário anônimo da internet.
     Eu amava isso tudo. Hugo me falava coisas que me faziam crer que era possível um mundo diferente. Sem tudo aquilo que meus pais queriam tanto sustentar. E foi isso que me fez tornar oculto todo o meu relacionamento com ele. Hugo me encantava com suas belas palavras e cada vez mais nos envolvíamos.
     — Você sabe né, Alice? Espero que tenha percebido já. Eu te amo. — começou ele quando fomos a um parque no centro e ficamos horas conversando deitados na cama. — E isso não é qualquer coisa, ainda mais vivendo aqui. Você me ama? — Confesso que era boba e sem lhe falar nada encostei lentamente o seu rosto no meu e trocamos um beijo. Será que ele entenderia como um “sim”? — Isso é maravilhoso mesmo nessas circunstâncias. Eu te amo. — beijamo-nos novamente.
     Depois desse dia estava totalmente entregue a Hugo.
     E ele sabia disso.
      Já tinha escurecido quando Alice acordou. Seus olhos ardiam e teve de ir piscando lentamente até a visão voltar ao normal. Apesar de todo o choro de mais cedo ela estava bem. Ligou as luzes do quarto e pôde se olhar no enorme espelho da parede. Seu semblante estava caído. Não estava bem. Alice sabia que tinha de tomar uma decisão urgente. Não conseguiria guardar seu segredo por muito tempo. Precisava falar com Hugo, afinal ele também estava nisso. Pegou novamente o celular e mandou uma mensagem de texto: “20h PBC”. Queria encontrar-se com ele em algum lugar movimentado, uma praça era a melhor opção. “Ok :)” ele respondeu em seguida.
     Hugo está digitando...
     Alice ficou off-line. Não podia conversar com ele agora. Não queria. Só conseguia pensar no problema que tinha se metido e na consequência que poderia trazer a ela. Ouviu sua mãe dizendo em sua mente: “Lembra-se da Srta. Sarah Viana?”
     Sarah Viana?
     Alice saiu às pressas. A praça não ficava longe, mas preferiu ir de carro. Não a ninguém que sairia. As ruas passavam por ela conforme acelerava o carro de forma que todo o ocorrido fosse embora juntamente com as casas e as pessoas pelo caminho. Em vão. Pelo contrário, na fragilidade da garota tudo aquilo voltava na mente da jovem e a manhã seguinte sobreveio a ela de maneira cruel.
     Sua menstruação já estava atrasada há uma semana. Isso nunca tinha acontecido desde a primeira que sangrara. Entre todas as amigas era a única que recebia sua visitante mensal com dia e hora agendados. Três dias e nenhuma surpresa. Nesse mês a surpresa chegou por três dias também, mas de ausência. Preocupada, leu na internet que o atraso é normal e consequência das irregulares taxas de hormônios que demoram a equilibrar-se para assim causar a menstruação. Isso a acalmou um pouco, porém os dias foram passando e nada chegava. Alice estremeceu, pois com mais de uma semana só haveria outro motivo para o atraso. E ela sabia exatamente qual era. Inúmeras sensações passaram pela sua cabeça. Alice e Hugo dormiram apenas uma vez depois de dez meses de namoro e tal coisa só ocorrera porque sabia que não estava em seu período fértil. Quanta baboseira! Não podia ser. Muito pior do que saber da possível gravidez naquela circunstância era suportar tudo aquilo sozinha. No dia seguinte comprou um teste de farmácia, um de coleta sanguínea. Alice espetou o dedo e apertou-o ainda sangrando na extremidade macia do pequeno aparelho plástico. 99 % DE CONFIABILIDADE dizia a embalagem. Aguardou. Uma bolinha, não, um tracinho, sim. Uma bolinha, não, um tracinho, sim. Uma bolinha, não, um tracinho, sim.
     Tracinho.

     Chegando ao local combinado pode enxergar Hugo de longe. Bastou um segundo e ela esqueceu toda a raiva que estava sentindo. Ele está tão bonito, pensou. Ele se aproximava como um tigre caminhando pela savana, de maneira bastante tranquila, mas imponente. Ele tocou em seu rosto e a beijou. Um beijo que tocou profundamente os dois. As pernas de Alice tremiam. Ele, percebendo seu desconforto perguntou.
     — O que aconteceu, amor? — perguntou aproximando-se para mais um beijo que ela recusou virando o rosto. — O que aconteceu?
     Com a pergunta, ela voltou a si:
     — Hugo, e-eu não se-sei nem falar. Estou a-assim desde-de manhã, precisava falar com vo-você. — Alice parou por um momento e respirou fundo. — E-eu es-estou gr-gr-grávida! — Alice começou a chorar compulsivamente. Ele a agarrou nos braços e a abraçou forte enquanto acariciava seus cabelos loiros.
     — Não chore, Alice. Calma.
     Que droga, pensou ele.


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