Alice
estava desolada, e pior: sozinha naquele quarto imenso. Não sabia como lidar
com o fato ocorrido. Apesar de já ter ouvido pela boca da própria mãe diversos
casos semelhantes. Minha mãe! Ainda mais para ela. Já estava
permissiva à sua vida pública junto à mãe, porém nesse caso seria algo
terrível. Um caso de morte. Talvez até mesmo duas mortes! Como fui
estúpida!
Ela
se culpava. Culpava a Hugo. E chorando percebia que era tudo uma grande
mentira: não havia culpados. O pior era que estava só nisso tudo, não podia
confiar em ninguém. As pessoas são sempre muito fiéis a Ferdinozza.
Seu choro aumentou.
“Você
precisa se controlar. Todos vão acabar percebendo assim.”
Demorou,
mas aos poucos ela mesma se consolava. O efeito era mínimo, mas já era alguma
coisa. E o rosto dele não saía da sua mente. Pegou o celular que estava no
criado-mudo. Os dedos deslizavam por diversos contatos da agenda... Anne...
Célio... Dora... Hugo. O rosto dele aparecia também ali. Sorrindo ao seu
encontro. Desistiu. Deveriam conversar pessoalmente. Nesse momento seu corpo
ganhou um enorme peso e só pôde deixar a gravidade tomar conta do resto.
Jogou-se na cama. Dormiu.
Alice
estava no terceiro ano do curso de Artes no Instituto de Artes de Belém. Isso
foi um problema para ela desde o início. Sua família que rondava pela a elite
da cidade era bastante conceituada para ter uma filha estudante de artes.
Poderia ser outra coisa? Diziam eles. Literatura ao menos, vire uma escritora.
A jovem relutava bastante aos caprichos dados, sobretudo ao pai, mas no fim
optou por estudar. Era radiante. Tinha plena certeza que era isso que queria,
não tinha sombra de dúvidas.
Não
consigo entender papai e mamãe. Porque esse assombro tão grande a minha vontade
de cursar artes? Pelo menos mamãe deveria entender. Não vejo nenhum hensel ao
menos andando em volta do colégio. Todos os estudantes são de nossa classe
social. São filhos dos mais variados homens e mulheres mais ricos da cidade.
Não há como negar. Hoje mesmo, em nosso primeiro dia de aula vi entrar em uma
das salas uma jovem que com certeza era filha de alguma atriz de teatro. Lembro
porque quando fui ao da Paz vi uma moça muito parecida com ela enquanto voltava
pra casa. Não há nada de errado comigo ou com a Arte... Muito menos a Arte...Mas
foi muito bom. Nosso primeiro dia foi bastante instrutivo. Conheci duas jovens
que parecem ser bem decentes, creio que mamãe não fará nenhum drama se convidá-las
para ir à nossa casa algum dia. Nossa orientadora é ninguém menos que Silvana
Barros, aquela artista que contei certa vez sobre o grande painel de um jardim
holográfico. Ela é muito mais agradável pessoalmente. São todos tão interessantes.
Fico pensando sabe... Será que vou ser como eles daqui há um
tempo?
A resposta era um pouco confusa,
pois Alice já era alguém desde seu nascimento. Mas no seu íntimo ela queria
algo mais. O curso seguiu a passos marcados e ela mergulhava bastante no mundo
artístico de Belém. Visitava muitos museus, exposições, galerias e também teve
de lia bastante coisa. Conheceu muita gente nova, gente diferente, pessoas de
todos os tipos. Ela os achava estranhos, mas gostava de estar com eles. Suas
amigas também eram bem diferentes dela. Ela meio que gostava disso.
Certa vez foram visitar uma exposição. Doze de junho. Como
sempre acontecia foram de carro Diana, Anne e Alice. Diana era uma jovem alta de
pele morena, cabelos ondulados coloridos e olhos bem marcados pela quantidade
excessiva de maquiagem prateada que usava, era a comediante do trio. Anne
também era bastante diferente daquilo que Alice conhecia anteriormente. Tinha
os cabelos cor de cenoura, lisos, na altura da cintura e usava roupas bem
coloridas. Era a mais inteligente das três, ou melhor, a mais experiente. Alice
era a mais calada. Tinha estatura mediana, cabelos loiros, claros, olhos
verdes, e expressava em todas certa imagem de pureza em que nelas não havia,
por isso, trocistas, chamavam-na de Aurora.
Diana estava demais entusiasmada para que
fosse com elas naquela exposição. Isso era notável, já que não se deixava olhar
nenhuma obra sequer, caminhando sempre a nossa frente e, reclamando, nos
mandando acompanha-la. Queria me apresentar a alguém... Hugo. Foi nesse dia em que
o conheci. Enquanto visitávamos a exposição de Guilhermo Torino ela correu em
sua direção, puxou-o pelo braço e sem tanta graça disse: “Hugo, quero te
apresentar a minha amiga Alice.” Não era a primeira vez que tanto Diana ou
mesmo Anne me aprontavam algo assim... Meu rosto logo ficava corado por não saber
o que fazer, mas antes que isso pudesse acontecer o recém-conhecido apenas
estendeu a mão e me cumprimentou. Saudou também a Anne, penso que já eram
conhecidos. Ele nos chamou e resolveu nos apresentar a exposição. Ao contrário
do que normalmente acontecia ele realmente era alguém que parecia gostar de
arte. Não era um daqueles que estavam sempre despenteados e com um cheiro de
álcool a metros de distância. Bastou nos afastarmos um pouco dele e Anne me
perguntou: “E aí, gostou dele?” Eu ri. Lembro-me como se fosse hoje. Depois
desse dia eu e Hugo ficávamos cada vez mais juntos. A companhia dele me
agradava e creio que também a minha a ele.
Não demorou muito para começarem a pensar
que estávamos namorando. Não digo que era mentira, pois ainda que subliminarmente
já nos amávamos. Os dias em que saíamos mais cedo ou até após as aulas, eram
sempre momentos livres em que desperdiçávamos juntos. Hugo trazia a mim algo
diferente que ainda não havia experimentado. Ele demonstrava-me bastante
segurança em suas palavras. Como eu, Hugo tinha inúmeras queixas ao governo de
Ferdinozza. Sua beleza emoldurada pela juventude e sua retórica encantavam-me
aos poucos. Hugo personificava naquele momento tudo aquilo que eu buscava em
alguém. Era perfeito.
—
Não somos nós, Alice, é isso tudo. — disse ele certa vez.— Querem nos fazer
acreditar que isso aqui é tudo. Eles estão construindo muros e mais muros,
cercas e mais cercas para nos isolar do restante. Renato disse-me que estão
construindo também um campo de trabalho nas ilhas. Isso é errado. — completava
ele como um revolucionário anônimo da internet.
Eu
amava isso tudo. Hugo me falava coisas que me faziam crer que era possível um
mundo diferente. Sem tudo aquilo que meus pais queriam tanto sustentar. E foi isso
que me fez tornar oculto todo o meu relacionamento com ele. Hugo me encantava
com suas belas palavras e cada vez mais nos envolvíamos.
—
Você sabe né, Alice? Espero que tenha percebido já. Eu te amo. — começou ele
quando fomos a um parque no centro e ficamos horas conversando deitados na
cama. — E isso não é qualquer coisa, ainda mais vivendo aqui. Você me ama? — Confesso
que era boba e sem lhe falar nada encostei lentamente o seu rosto no meu e
trocamos um beijo. Será que ele entenderia como um “sim”? — Isso é maravilhoso
mesmo nessas circunstâncias. Eu te amo. — beijamo-nos novamente.
Depois
desse dia estava totalmente entregue a Hugo.
E
ele sabia disso.
Já tinha escurecido quando Alice
acordou. Seus olhos ardiam e teve de ir piscando lentamente até a visão voltar
ao normal. Apesar de todo o choro de mais cedo ela estava bem. Ligou as luzes
do quarto e pôde se olhar no enorme espelho da parede. Seu semblante estava
caído. Não estava bem. Alice sabia que tinha de tomar uma decisão urgente. Não
conseguiria guardar seu segredo por muito tempo. Precisava falar com
Hugo, afinal ele também estava nisso. Pegou novamente o celular e
mandou uma mensagem de texto: “20h PBC”. Queria encontrar-se com ele em algum
lugar movimentado, uma praça era a melhor opção. “Ok :)” ele respondeu em
seguida.
Hugo está digitando...
Alice ficou off-line. Não podia
conversar com ele agora. Não queria. Só conseguia pensar no problema que tinha
se metido e na consequência que poderia trazer a ela. Ouviu sua mãe dizendo em
sua mente: “Lembra-se da Srta. Sarah Viana?”
Sarah
Viana?
Alice saiu às pressas. A praça
não ficava longe, mas preferiu ir de carro. Não a ninguém que sairia. As ruas
passavam por ela conforme acelerava o carro de forma que todo o ocorrido fosse
embora juntamente com as casas e as pessoas pelo caminho. Em vão. Pelo
contrário, na fragilidade da garota tudo aquilo voltava na mente da jovem e a
manhã seguinte sobreveio a ela de maneira cruel.
Sua menstruação já estava atrasada há uma
semana. Isso nunca tinha acontecido desde a primeira que sangrara. Entre todas
as amigas era a única que recebia sua visitante mensal com dia e hora
agendados. Três dias e nenhuma surpresa.
Nesse mês a surpresa chegou por três dias também, mas de ausência. Preocupada,
leu na internet que o atraso é normal e consequência das irregulares taxas de
hormônios que demoram a equilibrar-se para assim causar a menstruação. Isso a
acalmou um pouco, porém os dias foram passando e nada chegava. Alice estremeceu,
pois com mais de uma semana só haveria outro motivo para o atraso. E ela sabia
exatamente qual era. Inúmeras sensações passaram pela sua cabeça. Alice e Hugo
dormiram apenas uma vez depois de dez meses de namoro e tal coisa só ocorrera porque
sabia que não estava em seu período fértil. Quanta
baboseira! Não podia ser. Muito pior do que saber da possível gravidez
naquela circunstância era suportar tudo aquilo sozinha. No dia seguinte comprou
um teste de farmácia, um de coleta sanguínea. Alice espetou o dedo e apertou-o
ainda sangrando na extremidade macia do pequeno aparelho plástico. 99 % DE CONFIABILIDADE dizia a
embalagem. Aguardou. Uma bolinha, não, um
tracinho, sim. Uma bolinha, não, um tracinho, sim. Uma bolinha, não, um
tracinho, sim.
Tracinho.
Chegando ao local combinado pode enxergar
Hugo de longe. Bastou um segundo e ela esqueceu toda a raiva que estava
sentindo. Ele está tão bonito, pensou. Ele se aproximava como
um tigre caminhando pela savana, de maneira bastante tranquila, mas imponente.
Ele tocou em seu rosto e a beijou. Um beijo que tocou profundamente os dois. As
pernas de Alice tremiam. Ele, percebendo seu desconforto perguntou.
—
O que aconteceu, amor? — perguntou aproximando-se para mais um beijo que ela
recusou virando o rosto. — O que aconteceu?
Com a pergunta, ela voltou a si:
—
Hugo, e-eu não se-sei nem falar. Estou a-assim desde-de manhã, precisava falar
com vo-você. — Alice parou por um momento e respirou fundo. — E-eu es-estou
gr-gr-grávida! — Alice começou a chorar compulsivamente. Ele a agarrou nos
braços e a abraçou forte enquanto acariciava seus cabelos loiros.
—
Não chore, Alice. Calma.
Que droga, pensou ele.
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