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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Capítulo 2 “Ponto de Trabalho”


     As paisagens coloridas se desfaziam rapidamente da vista de Sérgio. Os casebres feios de telhado baixo, sem reboco e com os tijolos aparecendo que são características em Hensel ficavam cada vez mais distantes e davam lugar a uma vegetação rasteira e com poucas árvores. O dia que finalmente estava nascendo iluminava todo o ambiente de maneira bem desigual. Os raios de sol nascente aos poucos rasgavam a escuridão da noite anterior, permitindo a expressão de inúmeras tonalidades. O céu passava gradualmente do azul-marinho ao rosa e por último, ao amarelo. A vista que circundava aqueles grandes ônibus acabados de sair do TC impressionava aos olhos de qualquer um. O orvalho que aos poucos desaparecia por entre as árvores baixas trazia de volta a nitidez do espaço, apagando qualquer resquício do que antes era nublado. Ele sabia o que isso queria dizer. Já estava chegando na ponte. O campo de trabalho de Hensel era interligado à Belém por meio de uma ponte. Uma enorme ponte de concreto e cabos de aço sobre o rio largo de águas barrentas que circundava toda a ilha. A ponte era o único meio de entrar ou sair daquela ilha.
     A viagem seguia em silêncio. No ônibus separado aos homens podiam-se classificar três ações da maioria deles: tinham aqueles que continuavam no celular jogando ou na internet, os que liam alguma coisa e os que aproveitavam a longa viagem para cochilar. Nesse momento, porém, Sérgio não se enquadrava em nenhum destes. Já se cansara do Monummental Crush há alguns minutos. O silêncio resultado pelo ônibus elétrico automatizado e sem motorista permitia a ele pensar. Não que ele quisesse fazer isso, mas era impossível, sentia como se aquilo fosse mais forte do que ele. O ócio sempre lhe concedia a pensar na mesma pessoa.
     Júlia.                                     
     Quanta coisa mudou durante estes anos, pensou. A luz do sol que ficava cada vez mais forte batia em seu rosto e o refletia na janela do automóvel. Seu rosto ainda que se mostrasse disforme no vidro, refletia apenas ela na verdade. A ponte juntamente com o rio apareceram e Sérgio foi levado inesperadamente há dois anos.
     Ouve-se Elis Regina por toda a casa. O dia está ensolarado e a luz abundante entra pela janela como naqueles filmes românticos do séc. XVII, no estilo de Razão e Sensibilidade. A voz emitia agudos tão belos que traziam ao mesmo tempo alegria e êxtase. Sérgio está de folga nesse dia e prepara o almoço. Ele sorri e cantarola desafinado. Ele não dá a mínima, pelo contrário, chega até mesmo a balançar o corpo no ritmo da música, totalmente desajeitado. No fundo musical percebe os gritos e gargalhadas das garotas, Lana e Helena, que brincam no quintal. É perfeito. Ou quase. A qualquer momento Júlia chega...
     Toc, toc, toc. Não era ela, pensou.
     Toc, toc, toc. Eram batidas impacientes, persistentes.
     Toc, toc, toc. Sérgio caminhou até a maçaneta e girou-a.
     Tudo mudara. Passando a ponte de Hensel a paisagem mostrava-se bem diferente. Havia muros por todo lugar. E pontos de vigilância com homens armados.
     Toc, toc, toc.
     A porta se abre. Quem? Um casal está posto na soleira da sua casa. Pelo modo que estavam vestidos e pelos os olhos curiosos vasculhando cada centímetro da casa, com certeza vinham de Belém, o que é bem estranho.
     — Olá, senhor Sérgio Eduardo Augusto Sousa?— começou a mulher de olhos pequenos e voz anasalada — Er...Bom dia! Meu nome é Renata Novaes, sou da Secretaria de Trabalho de Complexo Hensel. E este é o senhor Abelardo Torino, policial do Centro. Precisamos conversar. — continuou desajeitada.
     Elis parou de cantar naquele momento. E tudo começou a andar mais rapidamente na mente de Sérgio. Uma nova música recomeçou, um melancólico solo de piano acelerado como a visão.
     — Sua esposa, a senhora Júlia do Nascimento Sousa sofreu um acidente de trabalho. — prosseguiu o homem bruscamente. — Infelizmente, — engoliu em seco — ela veio a falecer.
     O tom seco que saiu dos lábios finos do policial do centro destruiu toda a beleza daquele dia de sol.
     Acidente? O que aconteceu? Faleceu? Ele gritou com uma força tão grande como se uma lança fumegante estivesse transpassado seu peito.
     — Gostaríamos apenas que fizesse o reconhecimento do cadáver...Está no porta-malas da van...Faz parte do nosso protocolo — gritou também a mulher com a frieza do policial. A morte de qualquer pessoa de Hensel não comovia ninguém, muito menos alguém do centro. — Pode nos acompanhar?
     Voltando a si ele balançou a cabeça afirmativamente. Andou alguns passos em direção à van. As portas traseiras se abriram. Era ela. O corpo já pálido estava inerte em um caixote cinza. Ele não pode aguentar e começou a chorar. Não era um choro qualquer, era algo incontrolável que mesclava-se com gritos e soluções que em vão tentava conter apertando suas mãos contra o rosto em pranto.
     Júlia...não pode ser...Júlia? Olhe para mim.
     Ainda que implorando, era tudo em vão, o corpo não respondia. Nesse instante a porta da casa se abre e vindo em direção a ele está Lana com Helena nos braços sem nada entender. Sérgio respirou fundo e disse:
     — P-por fa-favor, fechem isso! Não quero que minhas meninas vejam a mãe delas assim. Elas não aguentariam. — disse ele baixo. Os dois obedeceram. Deram-lhe um cartão para que pudesse entrar em contato mais tarde. Não entendendo nada que lhe falavam ele apenas balançava a cabeça. Não estava ali. — Eu entro em contato.
     Shhhhhhhhhh. O ônibus parou.

     Sérgio voltou a si. Estacionado estava sendo levado pela correnteza que o empurrava para fora do ônibus. Todos eram retirados de um por um, todos eles, no mesmo momento em que eram organizados em filas pelos guardas vestidos de branco.  Para esse feito não desprezavam dar uma boa pancada nos ombros dos que relutavam a se organizar. O sol estava forte e as meias grossas já não serviam para nada. Era um local amplo onde estavam.
     Um grande quadrado de cimento no meio do Centro. Toda vez é a mesma coisa. Os guardas, a pancadaria, a fila. Agora só falta o chefe da guarda... O capacete azul. Onde está ele? Ah, ali.
     O comandante Cálibra Albuquerque chegava até eles. Era um homem ordinário. Branco, com uns quarenta anos, de feições comuns e um estranho bigode retangular aparado por cima dos lábios. Sérgio o conhecia das outras inúmeras vezes em que foi trabalhar no centro. Cálibra era admirado por toda a corporação. Usava capacete azul claro para se destacar de toda a multidão branca. Era ele o responsável pela a distribuição de todo o trabalho de Hensel à Belém. Ele adorava isso.
     — Senhores, sou o comandante Cálibra Albuquerque e líder da guarda que os acompanha. É muito bom ver todos vocês aqui dispostos para o trabalho. Temos muitas ofertas de trabalho em Belém, precisamos de todos, porém... Faremos uma breve seleção. Necessitaremos de homens que saibam trabalhar com construção civil, solda, pintura, pavimentação e muitos outros para a construção da nova estação de tratamento de água. — Ele calou e respirou fundo olhando duramente a todos aqueles que atentamente escutavam-no. — Guardas! — berrou ele. — Vamos lá, mexam-se! Escolham homens com vigor para o trabalho, fortes, e que não nos deem nenhum problema. Aos que sobrarem... Deem outras funções. Tenham todos um bom dia! — saiu em seguida. 
     Cálibra nos primeiros dias sempre se mostrava o mais educado dos homens, e quase todos sabiam disso. No entanto era preciso engolir a indigestão em seco. Se fosse escolhido ao trabalho na estação de água Sérgio teria trabalho garantido por pelo menos três meses. Valia a pena. Aos poucos cada um era chamado a fazer parte da fila o que não demorou muito para também ser chamado.
     ­— Você... De camisa quadriculada — disse um dos guardas selecionadores. Sérgio o acompanhou e fez o regulamento padrão. Espetou o dedo em um aparelho identificador do governo para assim ser efetivado. Não doía nada. Apenas uma gota de sangue pro governo saber até o que eu caguei ontem. — muito bem, senhor Sérgio Eduardo Augusto de Sousa, 43 anos, viúvo, duas filhas. Aprovado.

     O dia começou, disse. Valeu a pena ter comprado aquele pato.

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