O sol ainda nem clareava as
janelas sujas da casa n° 22 do Beco, mas para os seus moradores o dia começava
antes mesmo do amanhecer. Às três da manhã os primeiros passos já eram ouvidos
pelos corredores da casa. Sérgio acordava bem cedo para tentar um trabalho no
Centro e chamava sua filha mais velha para assim ajudá-lo, tomando conta da
casa e da filha menor, Helena. Ele vestia-se às pressas, estava preocupado e
ansioso, pois sabia como era difícil pegar o transporte para o Centro. Uma
calça verde desbotada, uma camisa quadriculada azul razoável, um sapato marrom
e meias grossas para suportar o frio da madrugada. O homem até demonstrava
certa limpeza naquele dia, com a barba feita e cabelos aparados. Era bastante
diferente do que se costumava a ver, parecendo até ter rejuvenescido. Olhava-se
no espelho rapidamente, endireitava a vestimenta e até acertava com as mãos o
cabelo penteado. Tudo isso porque hoje era um dia de escolha. Naquele momento
de sua vida, estar bem vestido e limpo, só se dava por este motivo.
— Pai, por favor, venha tomar seu café! —
disse uma voz ríspida saída da cozinha. Era Lana. Todos os dias era ela a
preparadora do café que os sustentava pela manhã. A partir disso ficava tomando
conta dos outros afazeres da casa. Lana era uma jovem bonita, mas como todas as
outras, ninguém é tão bonita às três da manhã. — Vamos! Já coloquei na sua
xícara.
— Ok, ok, estou indo. — respondeu seu pai
rindo — Dois dedos apenas, dona Giolana.
Preciso chegar mais cedo no TC. Hoje
é dia de escolha e não posso me dar ao luxo de não entrar em um daqueles ônibus
hoje. — Tomou um gole do café. Era o cotidiano café forte e doce que tanto
apreciava todas as manhãs. Sérgio mesmo havia ensinado a filha a preparar
quando as coisas ficaram difíceis para eles. A casa estava escura a não ser por
um lampião que preso à parede clareava um pouco a cozinha onde os dois estavam.
Hoje, como em todos os dias de racionamento, a energia só voltaria às seis. Giolana, como seu pai costumava chamá-la
devido a um programa de tevê sorria e lhe dava algumas torradas de pão velho
para engolir com a bebida quente. — Pronto. Já acabei, estou indo. Querida, já
sabes, cuida de sua irmã e ajuda ela na Cartilha. — levantou-se da cadeira onde
estava indo ao encontro da filha. — Ah, trouxe ontem um pato da D. Francisca...
Lana já sabia o que devia fazer. Sua mãe
quando viva havia ensinado a filha a tratar (como se diz) patos aos dez anos. E
a sua experiência já tinha lhe ensinado o resto, pois apesar de seu pai
cozinhar muito bem, a constante correria para conseguir um emprego no Centro o
impossibilitava sempre, por isso era Lana também, assim como o café, que
preparava a refeição de todos na maioria das vezes.
“Papai
deve estar otimista! Comprar um pato?!” pensou. Dona Francisca até que
vendia por conta a eles, não era algo tão atípico, mas mesmo assim não se
tratava de uma carne barata. Já haviam se acostumado a comer as vísceras
bovinas de todas as maneiras imagináveis que podem ser preparadas várias vezes
na semana. Hoje, porém, o dia reservava a eles uma surpresa.
Sérgio beijou o rosto da filha e
despediu-se como sempre fazia. A caminhada até o TC era feita pela avenida
principal de Hensel – que corta a ilha de leste à oeste – e levava aproximadamente
vinte minutos. Apesar de ainda ser madrugada Sérgio não seguia sozinho pela
estrada que conduzia ao terminal, estrada esta que era uma das poucas
pavimentadas de Hensel. Eram homens, mulheres, jovens e até algumas crianças. O
silêncio era quebrado vez por outra por algum cochicho, uma risada, mas Sérgio
permanecia calado, caminhando a passos apressados rumo ao único local que
estava aberto naquele horário, que fazia amanhecer todo o entorno com seus
holofotes e luzes brancas à escuridão e a vida dos habitantes que para lá
seguiam, o Terminal de Coleta.
O Terminal de Coleta do Complexo de
Trabalho Hensel, foi criado para abrigar a mais nova estratégia do governo para
a captação de mão-de-obra barata.
Tratava-se de uma enorme estação onde centenas de trabalhadores se aglomeravam
todos os dias para tentar um emprego no Centro. Era um lugar sem vida, mesmo
com todas as pessoas que circulavam por ele todos os dias. As luzes brancas que
iluminavam o TC deixavam aquele lugar com características de um hospital, com
exceção da limpeza que sem dúvida não havia ali. Todos os dias, às cinco horas,
partiam com destino ao centro de Belém dez ônibus lotados, cinco para mulheres
e outros cinco para os homens, que lutavam entre si para conseguirem entrar e
seguir viagem. Era sempre uma questão de sorte ir a Belém.
Sem nenhum problema ele chegou ao
terminal. Ele andava a passos largos e nem mesmo virava o rosto. Sempre pra
frente. O lugar começava a encher e era preciso se apressar. Os inúmeros
guardas adequadamente trajados de branco das botas ao capacete estavam por todo
lugar desde a entrada do Terminal até os locais de embarque e aos poucos
começavam a regular a multidão que chegava em filas por sexo. “Quatro e quinze” pensou ao olhar seu
relógio. Os ônibus ainda nem haviam chegado, mas todos sabiam que o tempo corre
bem depressa para se pegar um na estação de coleta. Mesmo assim era nesse
intervalo que eles, homens e mulheres, de um a um tiravam dos bolsos e bolsas
seus aparelhos celulares para assim acessarem à internet, mandar mensagens, ler
notícias ou até jogar seus jogos idiotas que deixam qualquer um entretido.
Quando isso acontecia o ambiente silenciava, nenhuma voz era ouvida, ninguém
conversava, pelo menos não fisicamente. Os aparelhos pareciam hipnotizar a
todos, inclusive a Sérgio.
Ele gostava de jogar um que consistia em
montar peças de uma mesma cor que a partir de um agrupamento de quatro unidades
desapareciam e se conseguisse formar uma quantidade x de agrupamentos atingia uma pontuação. Nada muito produtivo, mas
como todos diziam servia apenas para passar o tempo. O que era verdade, não que
o tempo precisasse de ajuda, mas assim funcionava, pois não demorou muito e já
era possível ouvir os ônibus enfileirados chegando e os alto-falantes do
terminal anunciando que já era hora de partir. Na fila improvisada o homem de
quadriculado azul devia ser o quinquagésimo, porém não significava nada já que
no momento do embarque era como se dizia: “cada
um por si e sorte a todos”.
Os ônibus abriram suas portas lentamente e
o tumulto começou. Sérgio com seu corpo robusto tentava esgueirar-se com
relativo sucesso mais próximo do ônibus, onde outros homens empurravam,
gritavam, chamavam palavrão, brigavam e uns até se batiam. Nos ônibus femininos
não devia ser muito diferente, senão pior. Nesse momento os guardas não
poupavam meios de conter o tumulto e também agrediam um ou outro mais alterado.
Segurando firme sua mochila deu também uns empurrões e enfim conseguiu subir
naquela correnteza que fazia na entrada do veículo. Consegui! Entrei! Ele havia conseguido. A primeira etapa fora
concluída. Mas ainda havia muito pela frente. Agora era esperar a longa viagem
e torcer para ser escolhido para o trabalho.
Com a mão direita, puxou novamente o
celular do bolso da camisa quadriculada e começou a jogar aquele estúpido jogo
outra vez.
Monummental
Crush.
O sinal grave que era tocado na hora em
que os ônibus de trabalho partiam para o centro lembravam as buzinas dos navios
que ancoravam na praia anos atrás que aos serem tocadas na hora da partida
podiam ser ouvidas à distância, assim como os ônibus neste momento. Lana pôde
ouvi-los de onde estava.
Tudo
vai dar certo. Boa sorte, pai.
Apesar do sono ainda presente ela ainda se
mantinha de pé. “Nem sempre o café faz
efeito”. Decidiu tomar banho. “A água
gelada da madrugada desperta sim qualquer um”. Despiu-se e colocou-se
debaixo do chuveiro. A baixa temperatura da água fazia seu corpo magro tremer
deixando-a até ofegante. Isso estranhamente a aliviava e despertava. Passou
sobre a pele alva o sabão caseiro feito por ela e a irmã que normalmente tinha
o cheiro de cravo-da-índia e erva-doce. Nada muito agradável, mas bastante
útil. Retirou toda a espuma e se enxugou rapidamente. Ainda trêmula, vestiu uma
roupa qualquer, a primeira que viu. Lana saiu do banheiro e dirigiu-se ao
quarto segurando o lampião. Olhando-se no espelho enquanto escovava os cabelos
podia-se começar a observar sua beleza. Apesar de cedo já estava bastante claro
e o reflexo do rosto da garota que cheirava a cravo e erva-doce se mostrava
perfeitamente.
Lana tinha dezenove anos. Branca, de rosto
delicado, cabelos castanhos, claros, e olhos verdes. Era de um perfil bastante
diferente do que se costumava ver em Hensel. De estatura mediana a delicadeza
vista em seu corpo se desfazia ao ver a prontidão da garota ao trabalho. Desde
bem cedo ela ajudava a mãe em todas as atividades da casa. Quando ainda era
viva. Apesar de ser bastante apegada ao pai foi bem difícil superar a perda da
mãe. Ainda mais nas circunstâncias em que tudo aconteceu. Ela preferia esquecer
ou fingir esquecimento. Doía menos.
Olha
só pra mim... até pareço aquelas atrizes de comerciais de sabonete que passam
na tv. Mas quanta diferença, não é mesmo? Lana Banana.
De repente um leve zunido percorreu a
casa.
É a
energia voltando.
Instantaneamente os aparelhos elétricos
acenderam suas luzes.
O dia começou finalmente. E não é a
energia que mostra isso, mas a lembrança do pato que me aguarda na pia.
Ainda estava cedo demais para acordar a
irmã mais nova, por isso foi à cozinha colocou mais um pouco de café em um copo
qualquer e ligou o aparelho de som.
Every day she takes a morning bath, she wets her hair/ Wraps a towel
around her as she's heading for the bedroom chair/ It's just another day.
Gaguejando algo no seu péssimo inglês
pôs-se a preparar o pato. Limpou-o por completo, lhe tirou as vísceras,
cortou-o em partes, lavando com sumo de limão e um pouco de sal. Lana o fazia
mecanicamente sem se dar conta de nada daquilo. Sua mente estava bem longe,
pensando em inúmeras coisas. Naquele momento no pai principalmente. Eles
precisavam daquele emprego. Papai tem que conseguir. Ele vai conseguir.
Du du du du du du, it's just another day/ Du du du du du du, it's just
another day, hey.
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