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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Capítulo 4 “Cupcakes”



     — Alice! — a voz irritada percorria todos os corredores da casa. — Onde está essa garota? — A mulher que subia e descia todas as escadas parou. — Alice Miranda Dias. Não vou mais atrás de você. — Nesse momento assumiu um tom ameaçador. — Só lhe digo uma coisa: se quando aquela campainha tocar você não estiver sentada na sala de estudos, você vai se arrepender, mocinha. — finalizou.
     A mansão dos Miranda estava esplendorosa naquele dia totalmente claro. A casa com suas paredes e teto brancos dava ao ambiente um ar de neutralidade que certamente não havia entre seus moradores. A mobília, elegante, com suas réplicas de cadeiras Luís XVI acolchoadas, tapetes indianos, adornos, e quadros com telas e retratos dos mais diversos artistas sintetizavam em um único olhar o brilho desta família na sociedade belenense.
     Alice tinha nove anos. E como sempre, comparada a outras garotas da mesma idade lhe davam uns oito, talvez até sete anos. Apesar de ser bastante comportada e obediente neste dia ela estava impossível. Tinha tirado insuficiente em Matemática, pela segunda vez consecutiva. O que deixava sua mãe ainda mais irritada e mais dependente do cigarro. Ela bebia e fumava muito neste tempo, por inúmeros motivos, talvez o menor deles fosse realmente a nota da filha, porém, sua ira se recaía totalmente sobre a menina. 
     Ellen contratou uma instrutora de matemática para auxiliar Alice no que fosse necessário. Suas notas tem que melhorar. O que seu pai vai falar de mim? Que não sei nem fazer minha única filha tirar notas boas na escola? Ellen estava totalmente fora de si. E sabia disso. Trate de melhorar já!
     Apesar da pouca idade Alice entendia isso e fazia o possível para confrontar a mãe, ao máximo até levar um tapa. Alice conhecia a mãe, e ainda que descontrolada, sabia até onde poderia ir. Por isso estava se escondendo para não descer até a sala de estudos, não era por não querer ter ajuda da instrutora, não, era para testar Ellen.
     — Alice! — gritou a mãe mais uma vez. Deu mais um trago no cigarro e continuou. — Não vou falar novamente!
     “Ok, já chega” pensou Alice. “A qualquer momento a instrutora pode chegar e mamãe não vai perdoar.” A garota saiu silenciosamente de seu esconderijo, apanhou seus cadernos lentamente e correu escada abaixo bruscamente indo em direção à sala de estudos. Sentou-se na poltrona vermelha que ficava no canto da sala, arrumou o enorme vestido vermelho de bolinhas brancas. Era uma boneca vestida assim, de sapatos pretos lustrosos com meias brancas e fita no cabelo claro. Uma boneca bastante astuta.
     Ding-dong. A campainha tocou.
     Sortuda, pensou Alice sorrindo.
     Que filha-da-mãe sortuda, sussurrou a mãe.
     Ding-dong.
     A porta se abriu. A silhueta de uma mulher alta, de cabelos cheios e negros, bastante bonita, com um sútil sinal acima do lábio superior acentuando isto, segurando uma pasta de couro surgiu em meio à claridade daquela manhã ensolarada que envolvia toda a casa.
     — Você deve ser a instrutora de matemática, certo? — perguntou Ellen no topo da escadaria que dividia o salão principal ao meio. Conforme descia a escada encapada com um tapete vermelho, a mulher dava incontroláveis sorrisos tortos enquanto dava mais e mais tragos no cigarro que finalmente chegava ao fim. — Que bom que chegou senhorita?
     — Sarah. Sarah Viana. — completou a jovem sorridente de maneira bastante educada.
     — Sim, sim. Senhorita Sarah saiba que se parece bastante com uma amiga muito próxima dos tempos em que trabalhei em Hollywood. — Ellen falava com um tom de menosprezo e amorosidade bastante característico dela. Era como se não estivesse em si. — Saiba, o seu trabalho é muito difícil hoje... você vai ter que fazer minha filha aprender matemática. — gargalhou.— Boa sorte, desde já. É só seguir por este corredor. Ela está aguardando você na sala de estudos. 
Ellen ergueu o braço trêmulo pelo desconforto causado pela bebida e o fumo, depois puxou novamente o laço que prendia o seu hobby de seda ao corpo, fez outro nó e saiu. Sarah seguiu seu caminho pelo corredor indicado sem dúvidas. A sala de estudos ficava ao final do corredor. A porta estava entreaberta e sabia que a garotinha que daria aula estaria lá esperando-a. Seu desconforto só vinha quando mirava as paredes. Cercada de rostos dos mais diversos, encaravam Sarah como se soubessem seu segredo. Será que eles podiam imaginar?
     Ela abriu a porta. Alice estava lá sentada em sua poltrona com seu caderno. As duas se encararam por alguns segundos. Sarah sorriu. A garota retribuiu.
     — Bom dia, meu bem. Meu nome é Sarah. Sua mãe me chamou para ajudá-la em matemática. Tem tido dificuldade, não é mesmo? — começou calorosamente tentando esquecer toda a sua preocupação.
     — Um pouco. Eu sei fazer as contas, mas na hora da prova me dá um branco.
     As duas riem.
     — Então nosso trabalho hoje é apagar esse quadro branco da sua mente, docinho. — prosseguiu. — Vamos lá!
     Sarah a levou até a mesa e começaram a fazer alguns exercícios. O tempo foi passando paulatinamente. Sarah percebeu que Alice na verdade não tinha dificuldade alguma em matemática. As duas respondiam mais e mais problemas de matemática até um toque na porta as interrompe em meio ao cálculo do resultado das somas, subtrações, multiplicações e divisões de inúmeras maçãs, laranjas e carros.
     — Com licença, minhas queridas. — Era Ellen novamente. Finalmente estava sóbria e sem nenhum cigarro nas mãos, em vez disso, trazia em uma bandeja prateada uma jarra de suco, alguns copos e cupcakes rosas enquanto entrava na sala. — Às vezes, gosto de fazer algum serviço doméstico para me acalmar. Preparei esse lanche para vocês, minhas matemáticas. Senhorita Viana? — interrogou Ellen enquanto colocava a o lanche na mesa de estudos. — Conseguiu enfiar algum número nessa cabecinha?
     — Pelo contrário, senhora Miranda, não precisei fazer praticamente nada. Alice é uma menina inteligente e sabe matemática muito bem. Creio que só fica nervosa na hora da prova, mas trabalhamos isso hoje.
     — Ah, é? — retrucou sem acreditar. — Se é dessa forma não preciso lhe pagar, certo? — gargalhou. — Bom, então lanchem pelo menos. Volto já.
     Sarah olhou para aquele lanche. Suco e cupcakes. Suco de cupuaçu e cupcakes rosas. Parecem ótimos, pensou. Ou não. Seu estômago revirou quase que instantaneamente. O cheiro forte da fruta trazia uma sensação horrível seu nariz.  Abruptamente, para tentar conter aquele enjoo que estava a jovem apanhou um dos bolinhos e deu uma mordida. Tomara que eles diminuam. Ellen percebendo algo estranho no comportamento da jovem volta-se ao encontro das duas. 
     — O que está havendo?
     O apetitoso cupcake rosa com confeitos coloridos que tinha apanhado era recheado com doce de cupuaçu.
     — O que foi senhorita Sarah? Não gosta de cupuaçu?
     Seu estômago não aguentou nem receber o alimento. Ainda tentando segurar a ânsia, ela não aguentou e acabou por vomitar no tapete do salão.
     — Oh, me desculpe! Perdão, senhora Ellen, foi sem querer.
     Alice observava tudo atônita, sem entender muito bem tudo aquilo que estava acontecendo ali.
     — Por favor, pode deixar! Não se preocupe com isso. Mandarei alguém ver isso já. — Ellen apanhou um copo e olhando fixamente nos olhos de Sarah encheu-o de suco. Se a filha, a bonequinha astuta de vestido vermelho quando queria a mãe o era permanentemente. Nesse momento os olhos de Ellen pareciam captar algo intangível, como que só existe entre ela e Sarah. Como um experiente caçador olhando ferozmente sua presa e planejando um futuro ataque, a mulher desvendava o maior segredo da instrutora, que era revelado por seus olhos marejados e sua expressão como de alguém que é pego fazendo besteira em flagrante. — Que coisa estranha não? Nunca vi tremendo enjoo. — sorriu às meninas e tomou um gole. — Não. Na verdade já, isso mesmo! Quando estava grávida de Alice tive um enjoo tão forte ao sentir cheiro de manga que quase vomito no senhor Miranda. — gargalhou ela com o olhar preso à Sarah. Ellen parecia como uma serpente se aprontando para dar o bote. Sorrindo, continuou: — Está grávida, senhorita Sarah?
     Ela não respondeu. Começou a tremer e compulsivamente a chorar.
     — Oh! Olha só isso. Como diz o ditado: quem cala, consente. É uma grande pena! — Sarah se pôs a chorar alto e dar soluços, e como se estivesse tendo um ataque de febre começou a tremer. — Não vejo aliança na sua mão, Sarah. Realmente, é uma pena!
     Ellen pegou o telefone. Sarah sabia o que ela iria fazer. Sabia o que faziam com todas que se atreviam a engravidar sem estarem comprometidas. Não havia mais tempo para choro, tinha que agir de alguma maneira. Sarah notava pela suavidade da voz de Ellen que de alguma forma ela estava feliz com tudo isso. Entregar alguém ao governo deve ser realmente muito bom. O reconhecimento. O corpo de Sarah estremeceu novamente. Abruptamente como que por instinto tirou o telefone das mãos que começavam a enrugar de Ellen e sem se dar conta começou a lançar tapas e empurrões à dona da casa. Agora era ela mesma que estava fora de si. Ellen caiu no chão. Sarah em disparada correu. Correu porque sabia que se ficasse ali a chance de sobreviver seria zero. Não teria chance alguma. Ela não estava mais sozinha, encontrava-se responsável por dois agora e deveria fazer o impossível para sobreviver, ela e o ser que estava abrigado em seu ventre, seu filho, o máximo de tempo que conseguisse, vivos. Nem que para isso tivesse que fazer coisas terríveis.
     "O desespero traz isso às pessoas. A ausência total da realidade." falou Ellen dirigindo-se a filha enquanto levantava-se do chão e apanhava o telefone novamente para ligar à polícia. "Veja muito bem isso e saiba desde já o triste fim que sua amável instrutora vai ter: a morte!", berrou a mulher.
     Ellen deu uma volta pela sala de estudos, olhou a cada coisa enquanto a ligação completava e encontrou o que queria. Uma bolsa de couro marrom estava colocada por sobre a poltrona vermelha. Louca, Ellen gargalhou: — Ora, ora, ora. Vejamos o que encontramos aqui. Hum. Pobre menina!
     A mulher puxava da bolsa uma carteira, a carteira de Sarah.

— Senhor policial, a vadia se chama Sarah Marques Viana, 22 anos. Avenida 30, número 456.

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