—
Alice! — a voz irritada percorria todos os corredores da casa. — Onde
está essa garota? — A mulher que subia e descia todas as escadas
parou. — Alice Miranda Dias. Não vou mais atrás de você. — Nesse
momento assumiu um tom ameaçador. — Só lhe digo uma coisa: se quando
aquela campainha tocar você não estiver sentada na sala de estudos, você vai se
arrepender, mocinha. — finalizou.
A mansão dos Miranda estava esplendorosa
naquele dia totalmente claro. A casa com suas paredes e teto brancos dava ao
ambiente um ar de neutralidade que certamente não havia entre seus moradores. A
mobília, elegante, com suas réplicas de cadeiras Luís XVI acolchoadas, tapetes indianos,
adornos, e quadros com telas e retratos dos mais diversos artistas sintetizavam
em um único olhar o brilho desta família na sociedade belenense.
Alice tinha nove anos. E como sempre,
comparada a outras garotas da mesma idade lhe davam uns oito, talvez até sete
anos. Apesar de ser bastante comportada e obediente neste dia ela estava
impossível. Tinha tirado insuficiente em Matemática, pela segunda vez consecutiva.
O que deixava sua mãe ainda mais irritada e mais dependente do cigarro. Ela
bebia e fumava muito neste tempo, por inúmeros motivos, talvez o menor deles
fosse realmente a nota da filha, porém, sua ira se recaía totalmente sobre a
menina.
Ellen contratou uma instrutora de
matemática para auxiliar Alice no que fosse necessário. Suas notas tem
que melhorar. O que seu pai vai falar de mim? Que não sei nem fazer minha única
filha tirar notas boas na escola? Ellen estava totalmente fora de si.
E sabia disso. Trate de melhorar já!
Apesar da pouca idade Alice entendia isso
e fazia o possível para confrontar a mãe, ao máximo até levar um tapa. Alice
conhecia a mãe, e ainda que descontrolada, sabia até onde poderia ir. Por isso
estava se escondendo para não descer até a sala de estudos, não era por não
querer ter ajuda da instrutora, não, era para testar Ellen.
— Alice! — gritou a mãe mais uma vez.
Deu mais um trago no cigarro e continuou. — Não vou falar novamente!
“Ok,
já chega” pensou Alice. “A qualquer momento a instrutora pode chegar e mamãe
não vai perdoar.” A garota saiu silenciosamente de seu esconderijo, apanhou
seus cadernos lentamente e correu escada abaixo bruscamente indo em direção à
sala de estudos. Sentou-se na poltrona vermelha que ficava no canto da sala,
arrumou o enorme vestido vermelho de bolinhas brancas. Era uma boneca vestida
assim, de sapatos pretos lustrosos com meias brancas e fita no cabelo claro. Uma
boneca bastante astuta.
Ding-dong. A campainha tocou.
Sortuda, pensou Alice sorrindo.
Que filha-da-mãe sortuda, sussurrou a mãe.
Ding-dong.
A porta se abriu. A silhueta de uma mulher
alta, de cabelos cheios e negros, bastante bonita, com um sútil sinal acima do
lábio superior acentuando isto, segurando uma pasta de couro surgiu em meio à
claridade daquela manhã ensolarada que envolvia toda a casa.
— Você deve ser a instrutora de
matemática, certo? — perguntou Ellen no topo da escadaria que dividia o
salão principal ao meio. Conforme descia a escada encapada com um tapete
vermelho, a mulher dava incontroláveis sorrisos tortos enquanto dava mais e
mais tragos no cigarro que finalmente chegava ao fim. — Que bom que chegou
senhorita?
— Sarah. Sarah Viana. — completou a
jovem sorridente de maneira bastante educada.
— Sim, sim. Senhorita Sarah saiba que se
parece bastante com uma amiga muito próxima dos tempos em que trabalhei em Hollywood. —
Ellen falava com um tom de menosprezo e amorosidade bastante característico
dela. Era como se não estivesse em si. — Saiba, o seu trabalho é muito
difícil hoje... você vai ter que fazer minha filha aprender matemática. —
gargalhou.— Boa sorte, desde já. É só seguir por este corredor. Ela está
aguardando você na sala de estudos.
Ellen
ergueu o braço trêmulo pelo desconforto causado pela bebida e o fumo, depois
puxou novamente o laço que prendia o seu hobby de seda ao corpo, fez outro nó e
saiu. Sarah seguiu seu caminho pelo corredor indicado sem dúvidas. A sala de
estudos ficava ao final do corredor. A porta estava entreaberta e sabia que a
garotinha que daria aula estaria lá esperando-a. Seu desconforto só vinha
quando mirava as paredes. Cercada de rostos dos mais diversos, encaravam Sarah
como se soubessem seu segredo. Será que eles podiam imaginar?
Ela abriu a porta. Alice estava lá sentada
em sua poltrona com seu caderno. As duas se encararam por alguns segundos.
Sarah sorriu. A garota retribuiu.
— Bom dia, meu bem. Meu nome é Sarah. Sua
mãe me chamou para ajudá-la em matemática. Tem tido dificuldade, não é mesmo? —
começou calorosamente tentando esquecer toda a sua preocupação.
— Um pouco. Eu sei fazer as contas, mas na
hora da prova me dá um branco.
As duas riem.
— Então nosso trabalho hoje é apagar esse
quadro branco da sua mente, docinho. — prosseguiu. — Vamos lá!
Sarah a levou até a mesa e começaram a
fazer alguns exercícios. O tempo foi passando paulatinamente. Sarah percebeu
que Alice na verdade não tinha dificuldade alguma em matemática. As duas
respondiam mais e mais problemas de matemática até um toque na porta as
interrompe em meio ao cálculo do resultado das somas, subtrações,
multiplicações e divisões de inúmeras maçãs, laranjas e carros.
— Com licença, minhas queridas. — Era
Ellen novamente. Finalmente estava sóbria e sem nenhum cigarro nas mãos, em vez
disso, trazia em uma bandeja prateada uma jarra de suco, alguns copos e
cupcakes rosas enquanto entrava na sala. — Às vezes, gosto de fazer algum
serviço doméstico para me acalmar. Preparei esse lanche para vocês, minhas
matemáticas. Senhorita Viana? — interrogou Ellen enquanto colocava a o lanche
na mesa de estudos. — Conseguiu enfiar algum número nessa cabecinha?
— Pelo contrário, senhora Miranda, não
precisei fazer praticamente nada. Alice é uma menina inteligente e sabe
matemática muito bem. Creio que só fica nervosa na hora da prova, mas
trabalhamos isso hoje.
— Ah, é? — retrucou sem
acreditar. — Se é dessa forma não preciso lhe pagar, certo? — gargalhou. —
Bom, então lanchem pelo menos. Volto já.
Sarah olhou para aquele lanche. Suco e
cupcakes. Suco de cupuaçu e cupcakes rosas. Parecem ótimos,
pensou. Ou não. Seu estômago revirou quase que instantaneamente. O
cheiro forte da fruta trazia uma sensação horrível seu nariz.
Abruptamente, para tentar conter aquele enjoo que estava a jovem apanhou
um dos bolinhos e deu uma mordida. Tomara que eles diminuam. Ellen percebendo algo estranho no
comportamento da jovem volta-se ao encontro das duas.
— O que está havendo?
O apetitoso cupcake rosa com confeitos
coloridos que tinha apanhado era recheado com doce de cupuaçu.
— O que foi senhorita Sarah? Não gosta de
cupuaçu?
Seu estômago não aguentou nem receber o
alimento. Ainda tentando segurar a ânsia, ela não aguentou e acabou por vomitar
no tapete do salão.
— Oh, me desculpe! Perdão, senhora Ellen,
foi sem querer.
Alice observava tudo atônita, sem entender
muito bem tudo aquilo que estava acontecendo ali.
— Por favor, pode deixar! Não se preocupe
com isso. Mandarei alguém ver isso já. — Ellen apanhou um copo e olhando
fixamente nos olhos de Sarah encheu-o de suco. Se a filha, a bonequinha astuta
de vestido vermelho quando queria a mãe o era permanentemente. Nesse momento os
olhos de Ellen pareciam captar algo intangível, como que só existe entre ela e
Sarah. Como um experiente caçador olhando ferozmente sua presa e planejando um
futuro ataque, a mulher desvendava o maior segredo da instrutora, que era
revelado por seus olhos marejados e sua expressão como de alguém que é pego
fazendo besteira em flagrante. — Que coisa estranha não? Nunca vi tremendo enjoo.
— sorriu às meninas e tomou um gole. — Não. Na verdade já, isso mesmo! Quando
estava grávida de Alice tive um enjoo tão forte ao sentir cheiro de manga que
quase vomito no senhor Miranda. — gargalhou ela com o olhar preso à Sarah.
Ellen parecia como uma serpente se aprontando para dar o bote. Sorrindo,
continuou: — Está grávida, senhorita Sarah?
Ela não respondeu. Começou a tremer e
compulsivamente a chorar.
—
Oh! Olha só isso. Como diz o ditado: quem cala, consente. É uma grande pena! —
Sarah se pôs a chorar alto e dar soluços, e como se estivesse tendo um ataque
de febre começou a tremer. — Não vejo aliança na sua mão, Sarah.
Realmente, é uma pena!
Ellen pegou o telefone. Sarah sabia o que
ela iria fazer. Sabia o que faziam com todas que se atreviam a engravidar sem
estarem comprometidas. Não havia mais tempo
para choro, tinha que agir de alguma maneira. Sarah notava pela suavidade
da voz de Ellen que de alguma forma ela estava feliz com tudo isso. Entregar
alguém ao governo deve ser realmente muito bom. O reconhecimento. O corpo de
Sarah estremeceu novamente. Abruptamente como que por instinto tirou o telefone
das mãos que começavam a enrugar de Ellen e sem se dar conta começou a lançar
tapas e empurrões à dona da casa. Agora era ela mesma que estava fora de si. Ellen
caiu no chão. Sarah em disparada correu. Correu porque sabia que se ficasse ali
a chance de sobreviver seria zero. Não teria chance alguma. Ela não estava mais
sozinha, encontrava-se responsável por dois agora e deveria fazer o impossível para
sobreviver, ela e o ser que estava abrigado em seu ventre, seu filho, o máximo de
tempo que conseguisse, vivos. Nem que para isso tivesse que fazer coisas
terríveis.
"O desespero traz isso às pessoas. A
ausência total da realidade." falou Ellen dirigindo-se a filha enquanto
levantava-se do chão e apanhava o telefone novamente para ligar à polícia.
"Veja muito bem isso e saiba desde já o triste fim que sua amável
instrutora vai ter: a morte!", berrou a mulher.
Ellen deu uma volta pela sala de estudos,
olhou a cada coisa enquanto a ligação completava e encontrou o que queria. Uma
bolsa de couro marrom estava colocada por sobre a poltrona vermelha. Louca,
Ellen gargalhou: — Ora, ora, ora. Vejamos o que encontramos aqui. Hum.
Pobre menina!
A mulher puxava da bolsa uma carteira, a
carteira de Sarah.
— Senhor
policial, a vadia se chama Sarah Marques Viana, 22 anos. Avenida 30, número
456.
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